O Canibal da Borborema

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O Canibal da Borborema

18:00 horas.

O Relógio marcava irritantemente a hora correta. Flávia Maxmiliano estava ansiosíssima repassando as perguntas que faria em breve a um dos piores assassinos que ela já havia visto em sua carreira como investigadora do departamento de casos especiais da DSPC. A ansiedade vinha, pois agora ela tinha nas mãos o maior interrogatório da sua vida. Dado a ela pelo empenho e por ser a única a seguir a linha de investigação que levou ao provável assassino em série.

Enquanto arrumava as perguntas no tablete apenas para conformidade, já que na cabeça ela tinha toda linha de raciocínio pronta a dias, nesse caso, desde a prisão do suspeito em flagrante na antiga estação velha. Ele tinha sido encontrado perto do corpo de uma jovem de apenas 15 anos. O corpo dela estava dilacerado, havia cortes e ela tinha sido desmembrada em 7 pedaços. No decorrer de três anos essa era a sétima vítima do caso que ficou conhecido como as mortes do “Canibal da Borborema”, isso se dava porque todas as vítimas tinham partes do corpo mordidas (e arrancadas) em especifico na parte lateral do pescoço, seios e um pouco abaixo da virilha, na parte de dentro da coxa. Enquanto revia as fotos das vítimas, todas mulheres, Flávia notou como tinha envelhecido em comparação com aquelas mulheres. Sua pele começava a mostrar os primeiros sinais, mesmo que imperceptíveis dos seus vinte sete anos recém completados. Tinha emagrecido pelo menos dois quilos e as fortes dores de cabeça eram combatidas com muito remédio. Não lembrava há quanto tempo tinha saído para se divertir. E tentava paulatinamente superar o rompimento de um noivado com sexo casual e altas doses de trabalho.

Trimmm! Trimmm!

O som clássico do celular a tirou dos devaneios e reflexões. O superintendente ligou pessoalmente e pediu pra ela se apressar, iriam começar mais cedo pois os abutres da imprensa já estavam chafurdando no lugar. Ela assentiu e depois de tomar uma xicara de chá de ginseng com coca pegou suas coisas e saiu.  No corredor do prédio sentiu o vento frio e voltou, colocou uma echarpe, o clima de junho nunca tinha sido tão chuvoso. Fazia mais ou menos 21 dias que chovia sem parar e o sol não tinha dado a cara nem uma vez sequer durante esse período. Flávia entrou no carro e ao sair do condomínio teve de frear forte, quase atropelou um mendigo. O homem tinha uma face horrenda e começou a gritar.

_ Ele está voltando! Ele está voltando! A estrela caiu! Ele está voltando!

O homem saiu cambaleando e aos berros. Flávia já tinha visto vários mendigos falando a mesma coisa e associou isso a um meteoro que tinha rasgado os céus da cidade a alguns dias, mesmo dia em que prenderam o Canibal da Borborema.

loboi

No caminho para o departamento ela observava a cidade enquanto escutava sua banda predileta “The Gathering”. Nos treze minutos até o trabalho, passava pelas ruas de Campina Grande, economicamente maior cidade da Paraíba, humanamente talvez tivesse se tornado a pior. A rainha da borborema tinha mudado drasticamente nos últimos anos, tinha ficado extremamente mais sombria, suja, caótica. Com todos os índices de violência crescendo Campina sofria com o desenvolvimento desmedido e vivia quase uma guerra civil devido a desmandos políticos e fervores religiosos. Uma piada recorrente era de que a cidade tinha passado de rainha, a prostituta da borborema por ter se vendido a grandes corporações. Mesmo com todo esse clima inóspito Flávia não queria abandonar o lugar, na verdade ela não tinha perspectiva de abandonar o lugar. Todos no departamento com exceção do seu chefe a achavam uma piada por seguir a linha do ocultismo, crimes relacionados a esoterismo e crenças religiosas. Mas hoje era a virada, devido a sua linha de pensamento eles tinham conseguido prender o provável “Canibal da Borborema” e esses mesmos colegas de trabalho teriam que engolir as piadinhas, ela iria conduzir o interrogatório. Uma pequena vitória em um grande balde de merda que era a corrupção no departamento tomado pelo jogo de interesses.

Parou no sinal e repentinamente se surpreendeu quando um homem que passava ao lado do seu carro adesivou um panfleto. Ela teve vontade de xingar mas respirou fundo e abriu o vidro para tirar o panfleto. Quando examinou o adesivo, tinha um selo de um bode, melhor dizendo, um baphomet que na bruxaria representava o deus pan e no satanismo representava o diabo. A jovem investigadora achou aquilo um tanto surreal mas com o clima que a cidade vivia todas as pragas começavam a surgir. Rumou até o departamento.

18:17 horas.

Já dentro da DSPC Flavia notou como seus colegas olhavam para ela. Alguns com inveja, outros com cara de quem não queria estar na sua pele. Rumou a sala da chefia onde o superintendente a aguardava. Depois de uma conversa nada amistosa ela expôs o fato que era imprescindível que ela entrasse sozinha na sala de interrogatório, uma vez que o acusado havia dispensado o advogado. Alguns minutos depois conseguiu convencer o chefe desde que o interrogatório ocorresse na antiga sala onde todos podiam ficar atrás da janela vidrada e a um passo da “porta segura”. Ela teve de concordar.

18:39 horas.

O Canibal estava sendo conduzido para a sala de interrogatório. Mesmo depois de examinar o caso e ter tido um contato prévio com ele Flávia nunca tinha notado o quanto o homem parecia bestial. O corpo extremamente musculoso se dividia em 1,95 de altura e 100kg de massa compacta. Os cabelos em um moicano desarrumado, eram tão finos e loiros como a aurora do dia fazendo contraste com a barba serrilhada negra e os olhos de um tom opaco quase mel. Enquanto passava pelo corredor que levava a sala lentamente a investigadora sentiu um frio subir pela sua espinha causando um arrepio inesperado. Atribuiu isso ao nervosismo que sentia. O “Canibal” foi colocado na cadeira de fronte a mesa e ao equipamento de gravação instalado cuidadosamente pelos técnicos. O superintendente olhou pra Flávia e disse que estava na hora. Antes de entrar Flávia cruzou com um dos técnicos e recebeu um aviso:

_ Não deixe ele sentir medo em você.

Ela assentiu com um sorriso e adentrou a sala.

O lugar era inóspito, não tinha nada de charmosa ou romântica como nos seriados e filmes. Ela entrou e pôs a pasta com dados e algumas fotos sobre a mesa e falou docemente.

_ Boa noite.

O homem levantou a cabeça e olhou a investigadora nos olhos, o calafrio de segundos atrás retornou instantaneamente.

_ Sou a investigadora de casos especiais Flávia Maxmiliano. Estou designada de conduzir o interrogatório preliminar da investigação 09/1988, acusado 2-00089. Iesus Lobo. O senhor confirma sua identidade?

O homem olhou pra ela e seus olhos tomaram uma tenacidade assustadora.

_ Bonito nome. _ Disse o Canibal com uma voz firme e grosseira.

_ O senhor confirma seu nome.

_ Me chame apenas de Lobo e eu vou chama-la de cordeirinha, assim está bom pra você?

A situação não agradava nem um pouco Flávia, ainda estava em perguntas protocolares e o acusado já estava dominando as iniciativas, ela sentou.

_ Isso lhe deixa à vontade. Se sim pode me chamar do que quiser. O senhor Lobo é portador da identidade 33706308?

_ Sim.

_ Não conseguimos encontrar nenhum vestígio de residência fixa da sua parte senhor Lobo. O senhor possui residência fixa?

_ Não

Ele a estava examinando enquanto respondia. Olhava fixamente a medindo em cada ação.

_ Você possui emprego senhor Lobo?

_ Sim. Sou pastor.

_ Afiliado a alguma igreja em particular? _ Flávia perguntava com a mãos cruzadas sobre a pasta.

_ Você não entendeu cordeirinha. Sou pastor de rebanhos. Pastorem Agnis.

Lobo ao falar isso abriu um estrondoso sorriso se deliciando com a expressão de espanto na face de Flávia. Ela sentiu que o homem sabia a impressão que causava, principalmente pelos caninos que de tão amolados pareciam duas presas protuberantes brilhando impecáveis junto com a arcada dentária deslumbrante.

_ Não vou me estender no assunto senhor Lobo. Me responda objetivamente se o senhor já esteve preso, ou já respondeu a algum processo?

O homem levantou uma sobrancelha, sua altivez zombeteira foi substituída por uma expressão séria e um pouco irritadiça.

_ Você me decepciona cordeirinha. Que tipo de baboseira é essa. Você me pareceu inteligente e obstinada. Mas agora segue protocolos como uma reprodutora de dogmas civis. Converse comigo e eu lhe direi o que queres saber.

Flávia ficou espantada, o tom de voz dele tinha mudado drasticamente, a face se contorceu e seu aspecto bestial aflorou quase como se ele fosse um verdadeiro lobo. A investigadora olhou pra o grande espelho que dividia as salas quase como quem pediria uma autorização e colocando a pasta de lado se debruçou sobre a mesa e falou.

_ Iesus Lobo você é acusado dos crimes de assassinato, de sete mulheres ao decorrer de três anos e foi preso na cena do crime em uma antiga estação da cidade. Você é culpado desses crimes.

_ Então é disso que estamos falando. Violenta hominis caedes ab hominis injuste patrata. O mais antigo dos crimes. Cain e Abel. Justo e injusto. Poder e fraqueza.

Flávia sentiu pela terceira vez o calafrio perpassar o corpo. O sentimento de desconforto crescia dentro dela a medida que ela achava que o homem estava mais à vontade com sua interrogação.

_ Você considera homicídios poder e justiça?

_ E o que mais poderia ser minha cordeirinha. Bem e mal são conceitos relativos. Existem milhares de mistérios ocultos da humanidade que são tiros no escuro com a precisão de um bisturi. Qui Vocat Bestiam.

A investigadora não deixava de notar que ele falava palavras desconexas em latim em alguns finais de frase ou no meio delas. Mas sempre que as falava sua entonação de voz era suave.

_ Então você confessa que assassinou as mulheres?

_ Sim.

O coração de Flávia quase saltou da boca. Não acreditava que ele tinha confessado assim sem mais nem menos.

_ Você em plena consciência está me dizendo que você assassinou sete mulheres com requintes de crueldade nesses três anos.

_ Sim cordeirinha. Eu matei, devorei suas carnes a dentadas deliciosas e tomei o sangue delas, depois as desmembrei e ofereci a ele. Homo Cornua.

O Canibal falou e passou a língua entre os lábios emitindo um som grotesco de quem se regozija com um banquete farto. Flávia não deixava de notar nas várias lagartixas domésticas que percorriam as paredes girando ao redor do relógio de parede ao fundo. Achou que a sala realmente não era utilizada há tempos. Sua expressão era de nojo ao mesmo tempo que no seu íntimo sentia a sensação de dever cumprido.

_ Quem é ele? Homo Cornua. _ Perguntou a investigadora.

_ Eu posso lhe dizer mas se você entrar nesse jogo minha pequena cordeirinha, jamais vai sair.

_ Eu me arrisco. _ Disse a investigadora sem pensar.

_ Então me diga como você sabia que eu iria estar no local onde fui preso e no horário exato. Um dos agentes me falou que você era a responsável pela investigação e que deu a informação.

Flávia tinha esquecido como tinha ligado as pistas dos seis assassinatos anteriores sempre acontecerem em lugares de forte apelo histórico na cidade e como tinha demarcado um heptagrama no mapa da cidade e verificado que se houvesse mais algum crime seria naquele local fechando assim uma estrela de sete pontas.

_ Só fiz o meu trabalho de investigar.

_ Oh cordeirinha você fez muito mais. Cada sussurro noturno. Cada sombra que se movia na escuridão. Cada símbolo sereno nas paredes. Você não deixou nada passar. _ O canibal olhou pra cima e manteve seu olhar no teto, continuou resignado. _ Você me perguntou quem é ele. Segundo a sua Bíblia, Lúcifer foi o mais puro e perfeito dos anjos antes de transformar sua bondade em maldade por desejar ser igual a Deus. Para os teólogos, o porquê de Deus permitir a influência do Demônio no mundo é um grande mistério. Acham que isso deve fazer parte de um plano superior que o ser humano não consegue compreender. Dos múltiplos enigmas evangélicos, o maior deles continua sendo a frase pronunciada por Jesus antes de expirar na cruz: “Pai, por que me abandonaste?” Então se você ligar as peças tão bem já irá saber a quem eu sirvo. Noctis Aeternae Obruat.

Flávia espantosamente achou aquele um clichê de filme de quinta. Ele agora apesar de ainda assustador se mostrava apenas como mais um louco de teor religioso e fundamentalista.

_ Então as motivações dos assassinatos foram servir a lúcifer. O diabo?

_ Não cordeirinha. Foi para servir a mim mesmo. Estou cagando e andando pra Lúcifer. Meus desejos são mais egoístas.

_ Explique-se.

_ Neste exato momento todos neste departamento estão mortos. Os únicos ainda com sopro de vida somos eu e você. Não cordeirinha. Não me olhe com esses olhos grandes e bonitos. Todo homem é mal em essência e eu serei o purificador desse mal. Veja estou sem correntes.

Flávia deu um salto da cadeira a derrubando e se pôs de pé. Sacou a arma tão rápida quanto pôde e apontou na direção do Canibal que esfregava os punhos sem algemas.

_ Como você fez isso. Coloque as mãos na cabeça e deite no chão. Agora! _ A investigadora foi até o vidro e bateu para que alguém entrasse e depois de segundos não obteve resposta. Foi até a porta segura e ela permanecia trancada. Selada.

_ Não seja tola. Há quanto tempo você não usa sua arma. Provavelmente se atirar em mim a arma vai falhar e eu quebrarei todos os ossos do seu corpo dentro de segundos. Agora volte aqui e vamos terminar nossa conversa. Prometo que não vou lhe ferir.

O medo consumia Flávia como nunca. Suas pernas tremiam e suas mãos fraquejavam. Aquela situação era impossível. Pensou em atirar na porta, mas como uma porta segura seria desperdiçar balas e não podia atirar no homem assim do nada. Sua cabeça estava mil por hora e a adrenalina crescia e tomava conta de suas emoções.

_ Eu já falei deite-se agora!

O homem ficou de pé. Ele parecia se agigantar com a situação.

_ Escute seus instintos. Não sucumba a seus medos. _ Ela falava baixinho pra si mesma.

O homem começou a caminhar em direção a ela enquanto ela se recostava perto da porta. Ele estava a quatro passos. Ela engatilhou. Três passos. Ela Mirou. Dois passos. Ela puxou o gatilho. Nada. A arma falhou e o Lobo estava em cima dela. A velocidade e destreza que ela foi desarmada a aterrorizou ainda mais. A pressionando contra a parede o Canibal falou:

_ Estava travada. _ Ele destravou a arma. _ Você cheira medo e resignação. Mas você tem um coração puro por isso vou lhe dar a chance de não ser totalmente arrebatada.

Ao falar isso ele pisou no joelho da investigadora com tanta brutalidade que a perna dela virou ao contrário rompendo ligamentos e ossos. Flávia caiu gemendo de dor. A percepção da situação talvez doesse mais que o dano físico.

Ele agarrou a outra perna e em um movimento rápido de luta corporal torceu o tornozelo da mulher quebrando-o também.

_ Desculpe cordeirinha, o perdão e a remissão só podem ser concedidos através da dor. Agora você sabe a verdade e cabe a você a salvação ou não. Olhe pra mim. Olhe nos meus olhos e me diga que você acredita que o mal é real.

Flávia soluçava de dor e respondeu aos prantos:

_ Sim eu acredito.

O homem lambeu seu rosto com a língua áspera.

_ Então cordeirinha você sabe que o bem também existe. Dois lados. Duas moedas e você no meio. Sele seu destino. Tenebras Solvo Canes.

Flávia escutou a porta abrir com um estalido. O canibal abriu a porta e tirou a chave, voltou e pôs a arma sobre a mesa. A investigadora escutou uivos.

_ As bestas estão vindo cordeirinha. Se há luz que há em ti são trevas quão grande será a escuridão. Olhe para o tempo o relógio marcará o bater de tuas asas as sete badaladas.

O Canibal saiu da sala a assoviar uma música que Flávia já havia escutado bastante enquanto jovem: “The number of the beast”. Tentou rastejar pra fora da sala e viu sangue escorrendo pelos corredores enquanto escutava os uivos e rugidos vindo lá de fora. Voltou rastejando para a mesa em busca da arma enquanto os rugidos se tornavam cada vez mais próximos e olhou pra o relógio.

O Relógio marcava irritantemente a hora correta.

18:59 horas.

Um conto por: Jefferson Lopes

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10 comentários

  1. Cara moro em Campina achei massa demais a ideia…E notei que o texto é meio autobibiografico…Fiquei imaginando se eu cruzasse com um dos personagens eu reconheceria…hehehe!

    Abraço!

  2. Porra tem talentos ainda aqui em Campina Grande..Boa história vou acompanhar…

    E vou mandar uns contos meus também para que tu publique…

    Abraço!

  3. Porra que bichão maniaco da porra!Curti!

    Quando eu tiver paciência escrevo algo de horror e envio!

  4. Não sabia que você tinha aspiração para escrita, Jeff. Eu vou ler os próximos contos, ler histórias sobrenaturais de Poe ou Lovecraft é bem diferente de ler histórias passadas num lugar que a pessoa conhece. Uma Campina Grande alternativa/futurista foi uma boa sacada! *thumbs up!

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