O Canibal da Borborema: Ato II _Uma segunda-feira para esquecer

Postado em Atualizado em

canibal da brb ato II

8:00 horas.

A segunda-feira mal havia começado e o dia já estava sendo péssimo. Desde as quatro da madrugada José Inocêncio não conseguia mais dormir. Sim os pais dele assistiram a melhor novela do mundo segundo eles, Renascer. E batizaram o filho com o nome do coronel do jequitibá rei. Preferências de nomes a parte, Inocêncio já vinha sofrendo com esses pesadelos a algumas semanas. E sempre acordava a mesma hora, era como um loop temporal e onírico onde ele sempre sonhava com o conto da “chapeuzinho vermelho” sendo que ele era o caçador que estuprava a chapeuzinho em cima das tripas do lobo agonizando e a vovozinha filmava tudo com uma câmera caseira. Pesadelo recorrente era um saco.

Inocêncio não estava numa vibe muito boa há dias, depois de ter sido assaltado pela nona vez no ano, somando ao todo vinte e um assaltos em toda sua vida ele se considerava azarado e esse ano em especial estava sendo o pior. Não conseguia compreender como no alto dos seus 1,83 altura e corpo construído a base de anos de artes marciais, pudesse ser tão azarado. Na verdade as artes marciais eram um escape para ele poder superar os traumas recorrentes do sentimento de impotência ao ser assaltado tantas vezes. Ele sempre prometia a si mesmo que reagiria da próxima vez, mas as situações recorrentes nunca o ajudavam. E como todas as outras vezes ele apenas entregava os bens e registrava o B.O mas por desencargo de consciência do que por sentimento de recuperação de algo. Vida as vezes era um saco.

Levantou da cama e foi ao banheiro. Seus pés doíam por causa de uma flacite plantar mal curada e ele não se importava mais com a dor, passou a conviver com ela. Tomou banho.

08:32 horas.

Repetia o mesmo ritual pós banho. Sessenta segundos exatos se olhando no espelho antes de se vestir. Ele mesmo não se lembrava como isso havia começado, mas virou um hábito. Sem motivo aparente lembrou como sua ex- noiva, Flávia Maxmilliano, sempre o trolava pela manhâ por causa disso. Saiu da torrente de pensamentos e recordações com o som de bate-papo do facebook o alertando para uma nova conversa. Era seu melhor amigo. Eferson, que também tinha problemas com nomes uma vez que devia se chamar Jefferson, mas um erro na hora da certidão e toda uma vida de anseios se ia pelo caminho.

Efferson ¬ Fala nojentoo

¬ E aee..

Inocêncio ¬ Falae mano

Efferson ¬ Vai pro boxe hoje a noite??

¬ To afim de dar uns treinos bacanas essa noite

Inocêncio ¬ Massa. Vou ver se dá tempo, hj vo trampar na festa de med.

Efferson ¬ Mas dá tempo tu pega que horas?

¬ 22h?

Inocêncio ¬ É..tenho que comprar um coqueteleira nova…perdi a minha

Efferson ¬  Massa. Hj no treino a gente combina.

Inocêncio ¬ blz..vlw!

Efferson ¬  Vlw!

chuva1

09:11 horas.

Descendo das escadas do pequeno duplex onde morava, Inocêncio viu como a cidade estava cinza. Junho sempre foi chuvoso, mas um mês inteiro de chuva era um saco.

No ponto de ônibus algumas adolescentes colegiais flertaram com ele. Às vezes quando estava com disposição dava bola para essas paqueras de rua, mas na maior parte do tempo achava desinteressante. Quando se tinha um amor real destruído a maioria dos outros sorrisos perdiam o valor. Não que ele tivesse virado um ser assexuado, mas difícil eram as vezes que se relacionava com meninas casualmente, apesar de sua vida de barman em festas na noite da cidade oferecerem várias oportunidades pra isso.

Pegou a condução.

O clima frio se refletia no vidro úmido do transporte. Encostou a cabeça na janela colocando os fones, a trilha sonora desse momento da sua vida era “canto dos malditos na terra do nunca” a banda já tinha até acabado, mas o som era muito bacana. Ficou contemplando os monólitos de blocos que eram as casas de conjunto. Para Inocêncio, a rotina dos dias aos pouco o consumia e trabalhar como designer gráfico era totalmente desinteressante, mas ele precisava do dinheiro. As contas se acumulavam e seu lado nerd de colecionador de rpg o fazia consumir livros e mais livros, mesmo sem jogar tanto quanto na sua juventude.

Durante o trajeto conseguiu flagrar pelo menos duas ações suspeitas. Devido seu histórico de situações de estresse tinha adquirido a péssima mania de desconfiar de quase tudo. Uma foi um sujeito parado atrás de uma parada de ônibus com um casaco e olhar desconfiado. A outra foi um carro com vidro fumê estacionado perto de uma creche. Talvez fosse apenas loucura da parte dele, mas ele sempre acreditava no copo meio vazio.

09:33 horas.

Fotos. Fotos. Fotos.

Saco. Saco. Saco.

Almoço. Almoço. Almoço.

Fotos. Fotos. Fotos.

Saco. Saco. Saco.

Liberdade. Liberdade. Liberdade.

17:28 horas.

Saiu do trabalho correndo e foi a uma loja quase fechando de artigos de bebidas. Comprou uma coqueteleira prateada. A sua tinha se perdido junto com a mochila no último assalto que ele tinha sofrido.

Na corrida até o ponto de ônibus por causa da chuva que caia forte, se deparou com uma mulher cheia de sacolas, esculhambando com um velho embaixo de uma marquize.

_ Seu tarado imundo! Vá se masturbar na Puta que o Pariu!

O senhor se arrastava ajeitando as calças, com um olhar assustado. Inocêncio refletiu momentaneamente como a cidade estava cheia de caos para todos os lados e como essa loucura se refletia na massa subconsciente.

Com a chuva a frase do De Niro em Driver: “Ainda bem que a chuva lavou a imundice das ruas. […] todos os animais aparecem de noite prostitutas, vigaristas, bichas, puxadores, traficantes, imorais corruptos. Tomara que um dia caia uma chuva de verdade para limpar essa escoria das ruas” nunca fez tanto sentido para Inocêncio. Ignorou e rumou até o ponto.

Foi pra casa ainda de mau humor.

18:48 horas.

Estava arrumando a mochila para descer pro treino, quando viu as notícias na televisão sobre o caso do Canibal da Borborema. Um serial killer que tinha sido preso a pouco tempo graças a sua ex. Apesar de estar feliz por Flávia, não gostava da midiatização da morte. Essa espetacularização o deixava perdido.

Bzim!Bzim!

A buzina da moto de Efferson o assustou, tropeçou e deixou cair o celular que desligou e não quis mais ligar. Praguejou e saiu. Encontrou com o amigo na rua.

_ E ae parceiro.

_ E ae mano

_ Que cara de bunda é essa? _ Perguntou Efferson.

_ Nada, apenas um puta sentimento ruim.

_ Bora treinar porra. Isso é o queijo na tua cabeça.

Rumou pra academia. Uma hora e trinta minutos da arte nobre melhorou seu humor. Efferson também tinha esse dom de animá-lo, ele estava sempre pra cima e entusiasmado com tudo.

Ao chegar em casa se despediu do amigo e foi se arrumar para a festa.

21h33 horas.

Chegou na boate que rolaria festa e já escutava um grande burburinho, todos só falavam na chacina do departamento de policia civil. Pediu celular de uma amiga emprestado e ligou para Flávia. Apenas chamava. Se preocupou e ligou para Efferson.

O amigo que era jornalista estava no local e deu as notícias nada animadoras. Vinte dois mortos confirmados. Um fugitivo, o Canibal da Borborema. E uma desaparecida. Sua ex-noiva. O sangue subiu à cabeça de Inocêncio. Já estava prestes a sair quando uma mulher tocou no seu ombro.

_ Olá bonitão. Podemos conversar? _ A mulher tinha um voz rouca. Muito rouca. Típica de quem fuma e de fato ela trazia um cigarro na mão.

_ Agora não é a melhor hora moça estou apressado.

Respondeu já dando as costas.

A mulher insistiu.

_ Sonhos ruins com a chapeuzinho é que estão te deixando assim?

Ele virou assustado. A mulher tinha longos cabelos cacheados. Devia ter cinquenta anos e não soltava o cigarro.

_ Não entendi. _ Inocêncio se fez de desentendido.

_ Já vi que não acredita em sonhos. Ateu?

_ Cristão.

_ Decepcionante… _ Ela apagou o cigarro no chão. _ Posso te dar uma carona se você quiser. Estou indo para frente da DSPC.

_ Não lhe conheço ainda, mas aceito a carona. Espera só um minuto.

_ Claro Inocêncio. E meu nome é Nair.

Ele foi até a dona do ambiente e explicou a situação. Sendo liberado na hora.

Encontrou com Nair já em um fusca preto o esperando na saída. Claro ao entrar no carro a zoação da galera no lugar foi imediata. “Fuscão pretooo” era o mote.

O fusca fedia a cigarro e frutas cítricas.

Apesar de estar com um pé atrás perguntou sobre os sonhos a Nair.

_ Curiosidade sempre é bem-vinda. O mundo é um lugar sombrio Inocêncio. Os grandes dogmas que você aprendeu na sua caminhada cristã estão na sua maioria erradas.

A chuva engrossou. E a Mulher pediu que ele fechasse os vidros. Mas continuou fumando. A fumaça ficava cada vez mais fedida e ele começava a se sentir zonzo.

_ Você já notou que eu estou fazendo o maior percurso até o DSPC e você não se deu conta por conta da chuva, da minha conversa e das suas preocupações?

Ele sentiu um medo crescente. Seu hábito da desconfiança ficou meio desligado com a notícia de Flávia. Desconversou.

_ Apenas achei que você fosse ruim com senso geográfico.

_ Boa saída. Mas isso não vai te salvar de envenenamento por fumaça de mandrágora e cannabis que eu venho fumando desde que você entrou no carro. Na verdade já era para você ter apagado.

Assim que as palavras terminaram de sair da boca de Nair ele já se sentiu desvanecer.

em_eclipse

22:44 horas.

Inocêncio despertou pelado e amarrado em uma parede dentro de um quarto que parecia ser de motel. Apesar de ser extremamente grande pra uma suíte de motel. Seus braços estavam presos para trás com algum tipo de tecido pouco maleável e as pernas presas com ligas de couro.

Tinha uma estante de madeira com quase uns duzentos bonecos de pano. Todos com rostos tristes de tamanho de uma mão no outro lado do quarto de frente para ele. Uma cama em forma de coração com lençóis vermelhos a sua esquerda e na direita uma fileira de maquinas de costura… Com certeza não era um quarto de motel.

Nair costurava na última delas. O quarto tinha a iluminação tipo alcova com um azul fosco. E fedia a vomito e sangue.

Inocêncio se debateu tentando soltar as amarras e não conseguiu.

Gritou. Gritou. Gritou.

Saco. Saco. Saco.

Surreal. Surreal. Surreal.

Pensou no tanto de notícias de maníacos e mulheres malucas na tv, mas nunca achou que uma merda gigantesca dessa fosse acontecer com ele.

Nair interrompeu suas reflexões com um palavrão e veio andando na sua direção. Ela estava vestida com roupas de couro no melhor estilo dominatrix e tinha um bonequinho nas mãos.

_ Por favor sua louca, dá para me soltar. Que doença você tem!?

Ele gritou.

_ Nada apenas estou quebrando sua rotina. O dia está sendo agitado não? _ Ela abriu um sorriso e esfregou o bonequinho no rosto dele. _ Esse é você. Número 198 da minha coleção.

_ Você é louca sua puta! Me solta Caraiii!!!

Ele esperneou. Ela sorriu.

_ Lembra dos sonhos. Pois bem eu sou a vovó. Agora temos de esperar o lobo e a chapeuzinho. Mas isso não quer dizer que não possamos brincar.

_ Você tá muito chapada se achar que vou brincar com você sua maluca de pedra.

_ Ah você vai. O jogo se chama me responda ou perca um dedo. E vamos começar.

Ela colocou o bonequinho na cama sentado olhando com a cara triste pra eles. E abriu uma gaveta cheia de bisturis, pegou um.

_ Você tem de rever seus conceitos e dogmas Inocêncio. O mal está em toda parte e depois de hoje a torrente de acontecimentos só tende a subir esporadicamente.Vamos voltar aos primórdios do mal. Mas me perdi em devaneios. E a pergunta é: Qual foi a última bebida tomada por Sócrates?

Inocêncio lembrou dos longos monólogos de uma ex dele que fazia filosofia e o usava como ouvinte das suas oratórias. Graças a isso sabia pacas sobre Grécia e filósofos antigos. Ao mesmo tempo pensou que tipo de jogo doentio era aquele que a mulher jogava. O medo o atemorizava. Mas diferente de todas as vezes em que ele fora assaltado dessa vez ele podia reagir.

Devido a um acidente treinando jiu-jitsu ele podia deslocar e realocar a clavícula no melhor estilo máquina mortífera. E já tinha folgado um braço.

_ Cicuta sua puta.

Se soltando da amarra ele deu um direto tão forte na cara da mulher que ela caiu aos pés da estante que desabou sobre ela. Aproveitando o bisturi ele cortou o resto das amarras e foi até a mulher. Ao procurar embaixo da estante ela tinha sumido.

Meio desnorteado ele pegou a roupa que estava em cima de uma das maquinas. Guardou um bisturi no casaco e depois de andar por uma mansão batendo em milhares de coisas achou a saída. Estava em uma mansão isolada no fim da zona norte da Rainha da Borborema.

Chovia forte.

Nem um sinal de carro. Ou telefone.

_ Segunda e Chuva é um saco.

Saiu a pé.

Por Jefferson Lopes


Link para o ato I

dark_game_scene.psd

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s