O Canibal da Borborema: Ato III – Ossos do Ofício

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o canibal da borborema ato III Ossos do oficio

07:00 horas.

Efferson adorava o gosto de seios pela manhâ.

Transar no escritório em que trabalhava diariamente tinha virado uma rotina perigosa, na verdade, ele adorava o perigo. Gostava de ser provocado por qualquer tipo de mulher e nesse trampo tinha encontrado a mulher perfeita para isso. Ela era sua superior, independente, bonita, popular e extremamente carente quando o assunto era sexo.

Tudo tinha começado quando a dita cuja o tinha pego espiando por baixo da sua saia, enquanto ela tentava ajustar um Datashow em uma sala de conferência. O tesão entre os dois foi tão grande que rolou ali mesmo. Daí pra frente tinha perdido as vezes nos últimos meses em que chegavam antes de começar o expediente e davam uma rapidinha na mini cozinha do 6º andar. Um andar acima do que trabalhavam.

Nesse dia em especial ele estava pouco afim, mas compareceu do mesmo jeito e no fim até gozou dentro. Esse era um detalhe que curtia em mulheres independentes e descompromissadas.

Anticoncepcional.

09:00 horas

Trabalhar em um site de notícias era bacana, apesar de requentar muita notícia, era uma grana relativamente fácil e lhe dava tempo para trabalhar de freelancer no resto do expediente. Além de ter tempo para manter a forma a base de academia e a nobre arte do boxe.

Depois de falar com Inocêncio pelo facebook ele tinha se preocupado, seu melhor amigo parecia ainda mais para baixo que de costume, e depois de ter rompido o noivado a vida dele parecia estar em uma ladeira extremamente íngreme. Efferson tentava ser o melhor possível e sua fama de estar sempre de bom humor fazia sucesso em todos os lugares, principalmente quando tentava bancar o bom amigo.

Poucos sabiam que esse bom humor era quase um disfarce que ele mantinha 24 horas por dia, sete dias da semana. Tinha passado por um estágio de depressão extremamente forte e ainda hoje tomava medicamentos. Tinha trancado seu “cachorro preto” no fundo da mente, mas ele ainda estava ali e a cada insucesso ou situação de estresse ele latia.

14:00 horas

Tinha tirado essa tarde para dormir. Mas seu sobrinho Hani tinha convocado ele para jogar algumas partidas de Batllefield e ele como bom viciado não podia deixar passar. Adorava jogos de guerra e os FPS’s o agradavam ainda mais.

18:00 horas

Depois de milhares de derrotas para o sobrinho de 15 anos, constatou que o mundo era realmente dos jovens, desconectou e rumou para a casa de Inocêncio já que tinha ficado de apanhá-lo para o boxe esta noite.

Pegou a velha cabrita, como batizara sua 150 cilindradas e partiu.

Andar de moto na chuva era inconveniente mas Efferson gostava. Se sentia livre, um sentimento estranho para um depressivo, viciado em sexo e videogames. Mas e daí. Como já dizia a música: “qualquer coisa que se sinta, são tantos sentimentos deve haver algum que sirva…”

21:35 horas

Depois de dar péssimas notícias ao seu melhor amigo. Efferson estava no formigueiro em que havia se transformado os arredores do DSPC. A chacina do Canibal da Borborema era noticia em cada canto da cidade. Milhares de curiosos, vários abutres colegas de profissão e familiares das vítimas. Essa era a pior parte, ver os familiares chorando seus mortos. Na verdade tão ávidos por notícias quanto qualquer um na puta da borborema nesse momento.

Apesar de ser um cara de contatos, estava sendo extremamente complexo trabalhar nesse acontecimento em questão pois envolvia uma amiga. Flávia Maxmilliano. Ex-noiva de Inocêncio e também amiga dele. Efferson não gostava dos rumos que as coisas iam tomando. No fundo achava que ela também havia sido morta, e com alguns anos de profissão já sabia que quem desse a informação. “O furo” como os abutres gostavam de falar seria a bola da vez na cidade. Ele não queria ser a bola da vez, dessa vez.

O caso do Canibal da Borborema era uma matéria que sempre o instigou. Era um desafio e ele gostava de ser desafiado. Mas agora. Agora ouvia lá no fundo os latidos do seu cachorro preto.

DSPC CG

21:59 horas.

Se afastou um pouco da zona frenética e resolveu mais uma vez tentar ligar para o celular de Flávia. Até agora as tentativas sempre deram em nada. Apenas celular desligado.

Até esse momento.

O celular chamou três vezes e uma chama de esperança atingiu em cheio Efferson. Alarme em falso, a ligação caiu e o celular voltou a seu estado passivo. O jornalista praguejou alto.

_ Inferno!

E uma figura que até então permanecia nas sombras se revelou dando um susto nele.

_ Desculpe tê-lo assustado. Não foi minha intenção. _ Falou a figura.

Ele era alto, um pouco acima do peso, mas com o porte parecia mais uma massa compacta do que fora de forma. Careca e com um colar de contas gigantes no pescoço. Parecia quase saído de um jogo de luta.

_ Não sem problemas. Só estava perdido tentando montar uma história. _ respondeu Efferson.

_ Qual das sete?

_ Desculpe. Não entendi.

_ O mundo é um lugar grande mas só existem sete histórias nele. _respondeu o robusto homem. _ O que muda são as milhares de formas de contar.

Definitivamente o homem tinha a atenção do jornalista.

_ Parente de alguém? _ Perguntou o homem?

_ Na verdade não. Sou um abut…Quero dizer jornalista.

_ Interessante. Prazer. Me chamo Frank.

_ Efferson.

Apertaram as mãos. O jornalista pode ver que no antebraço tinha uma tatuagem em letras negras escrito: “Venha Para a Luz”. Achou interessante.

_ Estou indo tomar um café. Me acompanha?

_ Ah não. Preciso voltar.

_ Posso lhe falar sobre o crime. Fui um dos primeiros curiosos a chegar.

Efferson pensou duas vezes e decidiu ir. Afinal o que ele tinha a perder.

22:17 horas.

Foram em uma lanchonete ali perto. Café quente com bolo mole. Simples mas extremamente eficaz contra o frio.

_ E então o que você pode me dizer sobre o lugar quando chegou?

_ Nada demais. Apenas energia escura e rastros de sombras para todo lado. Tão fortes e visíveis que eu até conseguiria segui-las. Não fosse essa chuva. _ Falou Frank.

Uma interrogação gigante se formou na cara de Efferson. Papo estranho.

_ Agora eu viajei. Do que você está falando. _ Perguntou o jornalista.

_ De coisas antigas. Tipo essa que você esconde da maioria. Dentro da sua cabeça.

Efferson teve de sorrir.

_ Por acaso você é um psicólogo em treinamento me usando de cobaia, ou você só é meio tan tan mesmo?

Ele falou em tom de brincadeira, mas Frank não sorriu.

_ Você é um emaranhado de energias meu caro jornalista. As positivas prendem as negativas. Usando a metáfora do índio, você alimenta o cachorro bom. Mesmo me vendo, com minha aparência, na terceira cidade mais violenta do país. Você sequer se afastou. Admirável.

_ Estou quase me afastando agora.

Efferson sorriu novamente. Frank o acompanhou dessa vez.

Passaram três viaturas na rua. As sirenes chamavam a atenção pelo brilho vermelho na garoa que deixava tudo cinza.

_ Posso lhe falar que sua amiga ainda está viva jornalista. E talvez seu melhor amigo também. Embora você possa estar me achando um louco. E talvez eu seja. Essa cidade se tornou uma catalizadora de tudo que é mal e corrupto na existência. Isso atraiu trevas, mas não só trevas. Para cada mal existe um bem. Para cada alma condenada existe uma redenção. _ O tom de voz de Frank era sereno e calmo, quase uma melodia ao falar. _ Você pode ser a redenção de outros Efferson. Pode tentar salvar as pessoas próximas a você. A pergunta é você está disposto a pagar o preço?

Efferson achava a conversa muito sem significado, mas esse “estranho” saber coisas sobre ele o faziam chegar a uma conclusão. Tinha de parar de falar da própria vida no facebook. Sorriu interiormente.

_ Levando em conta que estou gravando cada palavra que você falou desde o primeiro cafezinho. Qual é a sua irmão? _ Questionou o jornalista.

Frank encarou firmemente ele, levantou olhando ao redor preocupado e estendeu a mão para ele em um cumprimento. Efferson não pôde deixar de notar que o homem estava muito quente apesar do frio que fazia. Então sentiu que ao soltar do aperto Frank tinha deixado uma carta de baralho na mão dele.

_ Se o mundo visível não passa de ilusão… O seu criador não será o ilusionista por excelência?

O robusto homem saiu na noite chuvosa sem explicação, assim como havia chegado. Repentinamente. Efferson ainda embasbacado olhou para a carta e viu que era uma carta de tarot, búzios ou qualquer coisa do tipo. Nunca foi muito ligado em significados do tipo místico. Mas graças ao Deus google fez uma pesquisa rápida através do celular. A resposta à carta se chamava o mago ou ilusionista. “Em um sentido geral podia ser considerado símbolo da atividade originária e do poder criador existente no homem. Como ponto de partida do Tarô, é também o primeiro passo iniciático, a vontade básica no caminho para a sabedoria, a matéria primordial dos alquimistas, o barro paradisíaco do qual será obtido o Adão Kadmon.”

Efferson praguejou de novo contra a resposta que a internet lhe dava.

_ Porra de cidade cheia de loucos!

Podia ouvir seu cachorro preto latir no fundo da sua mente. Maldição.

Rolou a carta sobre a mesa desinteressado e ao olhar melhor viu que tinha algo escrito:

“ Caio & Esther Advogados _ Atendemos das 19h às 00h de segunda a sexta.”

Novamente uma rápida pesquisa no google e conseguiu um telefone e um endereço, que por sinal ficava a quinze minutos dali. Por mais estranho que parecesse o horário de atendimento (Uma tendência na cidade nos últimos anos dada a agitação do dia as pessoas encontravam muito tempo a noite para fazer coisas que não podiam durante o expediente normal), a enorme vontade que ele tinha de descobrir as coisas o fez ligar instantaneamente. Depois de uma ligação rápida conseguiu marcar um horário para as vinte e três horas. Não tinha ideia do que ia fazer lá, mas com certeza o desafio o motivava.

Guardou a carta no bolso da jaqueta e voltou a DSPC. O alvoroço estava cessando pois a polícia tinha cercado o lugar e criado um perímetro de espaço maior, o que deixava os curiosos mais afastados. Enfim, teve de usar toda lábia para poder pegar a sua moto de volta. Deixou um contato com uma amiga abutre para se algo acontecesse na madrugada e rumou para o escritório de advocacia.

katana

22:59 horas.

O jornalista parou em frente à casa que se dividia em quatro quedas d’água. O portão da frente tinha as iniciais C&E em letras estilizadas e um segurança em uma guarita próxima. Parou a cabrita e buzinou. O segurança apontou pra o interfone e Efferson explicou que tinha hora marcada. O portão se abriu e ele deixou a moto em um mini estacionamento. Uma jovem de cabelos curtos o recebeu e o conduziu a uma sala de espera. Os moveis eram rústicos mas com um toque quase noir. Em sua grande maioria os móveis eram vermelhos, assim como os papéis de parede.

Esperou mais uns quinze minutos até que fosse chamado. A moça falou que Caio o atenderia. Foi conduzido a uma sala no segundo andar. Um homem de terno escuro o atendeu. Cabelos castanhos. Finos e bem penteados. Barba feita. Sapatos brilhando. Um oposto ao jornalista que vestia jeans rasgados, jaqueta e all star. Fora a barba por fazer e os cabelos sempre bagunçados. Se cumprimentaram.

Sentaram.

A sala tinha uma decoração ainda mais antiga que o andar inferior. O que chamou a atenção do jornalista foi o par de espadas katanas seguradas por uma estátua atrás da cadeira do advogado.

_ E então senhor Efferson, como posso ajudá-lo?

O jornalista retirou a carta da jaqueta e mostrou ao advogado.

_ Um homem que conheci essa noite me deu isto e tinha seu contato.

Os olhos do advogado brilharam e por um instante Efferson jurou que tinha visto o rosto dele se contorcer.

_ Ora é uma bela carta e fico triste por não poder tratar com você de outra maneira senhor Efferson. Mas essa carta é um passe. Um passe dado a poucos desesperados. E Juro que em minha primeira impressão você não me pareceu nem um pouco desesperado. Você fede a vida, mas são ossos do ofício.

O advogado ficou de pé e em um rápido movimento sacou a Espada das mãos da estátua, avançou com um pé sobre a mesa que separava os dois e estocou Efferson que pelos reflexos da pratica do boxe pôs a mão na frente para se proteger. Apenas freando o impacto inicial que parou a ponta da katana a centímetros do seu coração.

_ Que porra é essa caralho! _ Gritou o jornalista em choque.

_ Apagaremos teu sopro de vida, mas uma vez apagado teu sopr…

_ Vai tomar no cú! Tá tentando me matar e citando Anne Ricce! Que Merda é Essa!

Efferson tentou se mexer, mas por algum motivo todo seu corpo estava pesado e entopercido. O advogado começou a deslizar lentamente a katana para dentro do peito dele. O desespero tomou conta do seu ser.

_ Como eu invejo você. Todos esses minúsculos sentimentos. Essas emoções. O desespero da hora final. Saber que vai morrer…

A lamina deslizou um pouco mais.

_ O que eu não daria para sentir novamente essa sensação. Momentos. Como um relógio tiquetaqueando na amplitude do vazio. A brevidade de uma vida medida nos segundos que antecedem sua morte.

A lâmina atingiu o coração de Efferson. Ele nunca pensou que teria uma morte tão angustiante. Sempre se imaginou velhinho. Com netos. Dizem que a sua vida passa diante de seus olhos na hora da sua morte. Mas porque ele não conseguia lembrar de nada? Só a porra do desespero de morrer vinha na mente dele!

A lâmina trespassou totalmente o seu coração. Ele sentia a morte. Estava morrendo.

_ Você vai morrer Efferson. E quando acordar será uma criatura diferente. Uma deturpação da obra do criador. Apenas durma. Durma criança da noite.

A respiração dele começou a falhar, o mundo ia apagando e ele continuava sem lembrar de absolutamente nada.

Apenas uma coisa o fez ter paz em seus últimos momentos.

Não ouvia mais os latidos do seu cachorro preto.

Por Jefferson Lopes

Link para o ato I

Link para o ato II

katana 2

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