Demônio da Garrafa

Postado em Atualizado em

demonio da garrafa

Acordo. Não estou em minha cama. Não estou em meu quarto. Não consigo ouvir o som que sempre ecoa vindo da goteira na garagem. O único som que se apresenta é como um apito que vem de tempos em tempos. Está escuro. O cheiro é forte, diferente. Onde estou?

A vista volta a funcionar aos poucos, mas já é suficiente para perceber todas aquelas luzes que emanam ao meu lado. Alguns pontos verdes, algumas linhas vermelhas… aparecem vários números também. De repente reparo nos fios que conectam meu corpo a algum tipo de máquina… Hospital! Mas como vim parar aqui? Não lembro de nenhum motivo para me encontrar aqui.

A porta logo a frente é aberta lentamente. A mulher que entra em seguida mais parece uma ilusão, uma verdadeira boneca de porcelana com seu vestido branco. Ao se aproximar me deparo também com sua face gélida e um olhar mais escuro do que a noite sem luar. Ela afirma que fará a última troca da medicação já que receberei alta ao amanhecer do dia. Ela também fala sobre trocar as agulhas, dando algum motivo que não prendeu minha atenção – estava mais preocupado em saber como eu estava. Sinto alguma dor? A resposta é não.

Antes que ela saia pretendo questionar sobre o que me levou a estar ali. Tento falar, mas por algum motivo o som não sai de minha boca. Ela vai embora depois de completar o serviço. Por que não falei nada? Por que não perguntei sobre o motivo de estar ali? Bom, talvez seja a sequela do que tenha me ocorrido, seja lá o que tenha sido.

Ainda preso em meus pensamentos começo a sentir um pequeno formigamento na mão esquerda. Acredito que seja apenas a reação quando ela substituiu a agulha. Alguns segundos depois começo a ouvir um som familiar, familiar o bastante para não deixar dúvidas… a goteira! Mas como? Estou no hospital, como posso ouvir aquele mesmo som de todas as manhãs? Então o formigamento aumenta na mão e ao tocá-la tenho a surpresa de sentir algo molhado e pegajoso que pinga entre os dedos até o chão. Não pode ser, meu sangue se esvai pela mão e não percebi! A primeira iniciativa é retirar a agulha que deve ter causado o estrago.

Meu sangue passa a jorrar ainda mais rápido. Tento pegar meu cobertor para tentar estancar o ferimento. Aperto bem, e por um momento parece resolver, mas em seguida vejo todo o pano ficar ensopado. Meu Deus, não consigo gritar, não consigo chamar por socorro, também não existe nenhum botão para pedir ajuda. Só me resta tentar levantar. Não sei se a força que me restava me abandonou junto com o sangue ou se algo prende minhas pernas à cama, mas o fato é que também não posso levantar. O que fazer?

A porta se abre novamente. A mesma enfermeira no vestido branco adentra no quarto e volta a fechar a porta extinguindo mais uma vez a luz que já não parecia tão forte no corredor. Mas algo está diferente nela… são seus olhos… estão vermelhos e brilhantes, como uma fogueira.

– Parece que foi mais rápido do que o esperado!

A voz dela me apavora. Não mais do que vê-la ainda mais de perto. Ela fica ao meu lado e pisa tão forte no chão que um buraco onde daria para passar 3 pessoas juntas é aberto, fazendo meu sangue escorrer até o andar abaixo do quarto. Viro o rosto para vislumbrar o que parecia ser um show de horrores. No andar de baixo se encontravam dezenas de seres com a pele mais branca do que a mais reluzente nuvem no céu, com os olhos mais vermelhos do que o mais brilhante rubi já visto e com os maiores dentes que se possa imaginar.

Os monstros disputam cada gota que escorre pelo teto, sempre ansiando por mais. A “enfermeira” sorri deixando transparecer os grandes dentes. Estou perdido! O que está acontecendo? Como isso aconteceu? Por que não consigo gritar? Por que não consigo fugir deste pesadelo?

– Meus filhos tentam saciar a fome com cada gota vermelha de seu corpo Richard, mas a minha fome nem se compara a deles. Então, agora é minha vez!

Me vejo sendo atacado por aquele monstro que usas seus dentes para morder meu pescoço e atingir minha veia jugular. Minha única reação é levantar a mão direita, como quem pede socorro aos céus. Tudo fica mais escuro até o ponto em que não sinto mais nada…

Acordo. Sinto calor. Sinto muita dor. Muita dor mesmo. Onde estou?

Meu Deus! Mais uma vez? Será estou em mais um de meus pesadelos – eles estão cada vez mais constantes, chegando a três ou quatro por noite. Não aguento mais. Mas dessa vez parece diferente. Começo a ter lembranças, e cada uma que me aflige parece ser pior que a outra. Preciso entender melhor o que ocorreu, preciso entender onde realmente estou e o que me levou a estar naquele lugar.

Naquele momento percebo tudo. Estou em um carro, ele está completamente destruído. Sinto minha mão ensopada de sangue e vidro. Ouço o som da goteira, mas não a da garagem, é aquela que sai do carro capotado direto pro chão. Tento me mexer e apenas a mão ensanguentada não responde aos meus comandos, por isso chuto várias vezes a porta do motorista para conseguir me livrar daquele monte de ferro amassado.

A primeira visão que tenho ao sair é o corpo de Holt que foi arremessado pelo para-brisa do carro. Logo a diante está a casa de meu pai. Isso me fez compreender quase tudo.

Era dia 3 de Novembro, tinha acabado de acordar em minha casa e alguém toca minha campainha. Me surpreendo ao ver o carteiro do bairro. Ele me entrega apenas uma carta. Abro ela ao entrar na casa e acho que foi a carta mais surpreendente que já recebi. Meu pai estava morto. A carta foi enviada por um advogado que dizia representar o velho Wilbur Waite, e nela também estava reproduzido um bilhete deixado por meu pai para mim, Richard Waite.

A morte de meu pai não me deixou triste, apenas surpreso. Já haviam passado vários anos desde a última vez que nos falamos. A surpresa maior foi gerada pelo bilhete. Ele ainda se lembrava do filho pelo que parece.

demonio da garrafa 2

Pela carta ele morreu no dia de halloween. Foi nesse dia que o advogado recebeu uma ligação pela manhã pedindo que fosse imediatamente para Hamar tratar de assuntos importantes com o senhor Wilbur. Não entendo o motivo de meu pai ter feito algum advogado sair de Oslo para Hamar para atende-lo – as duas cidades ficam em condados distintos na Noruega.

fato é que ao chegar na casa do senhor Waite foi encontrado apenas seu corpo de bruços sobre a mesa, um bilhete destinado a mim e um destinado ao advogado. Segundo ele, meu pai explicou no bilhete que nada na casa deveria ser tocado até que Richard chegasse para pegar uma “encomenda” deixada somente para ele. Liguei para o número desse advogado que foi deixado no verso da carta. Seu nome é Kevin Rusell:

– Alô, gostaria de falar com o Dr. Kevin.

– Sou eu mesmo, que está falando?

– Aqui é o Richard Waite.

– Ah, senhor Waite. Sinto muito por sua perda.

– Obrigado doutor. Gostaria de fazer algumas perguntas com relação ao que você encontrou na casa.

– Antes que pergunte eu farei um breve resumo. Eu entrei na casa que estava com a porta aberta, e ao entrar eu fiquei chocado. Aquilo mais parecia um laboratório ou uma biblioteca sombria. Tinha uma mesa no centro da casa e seu pai estava de bruços sobre ela. Eu avistei os bilhetes e os li em seguida. No meu estava escrita as instruções de como agir e de como deveria entrar em contato com o senhor. Mas tenho que admitir, eu verifiquei a tal encomenda deixada para você, não consegui me conter pois achava que seria algo que pudesse explicar o suicídio dele.

– E o que o senhor encontrou?

– É apenas uma garrafa. Uma garrafa vazia abaixo da mesa e com seu nome escrito em um pedaço de papel colado nela.

– Isso… é muito estranho.

– É sim. Desde que seu pai me contatou pela primeira vez tive receio de ir atende-lo, mas a quantia que ele me ofereceu falou mais alto.

– Eu entendo. Bom doutor, não quero tomar mais do seu tempo. Farei o que está escrito no bilhete e qualquer coisa eu entro em contato novamente.

– Eu agradeço senhor Waite. Mais uma vez, minhas condolências.

O bilhete deixado para mim era bem específico. Meu pai pedia para que eu fosse até sua casa e pegasse a encomenda deixada sob a mesa para entregar a um tal de Holt que morava em Drammen. Eu pensei “meu pai que enlouqueceu desde a morte da minha mãe e que não tinha mais contato comigo quer que eu faça um favor depois de ter se matado”! Não sei porque, mas nesse momento eu já estava indo pro carro para seguir pro endereço em Hamar.

demonio da garrafa 3

Eu tento entender porque estou fazendo aquilo, algo tão ilógico quanto meus pesadelos. Lembro de minha infância. Daquele casal que levava seu filho todo domingo batendo de porta em porta para espalhar a palavra de Deus. Pois é, eles eram protestantes bem assíduos. Em um desses domingos minha mãe foi fazer a pregação sozinha. Meu pai e eu fomos visitar meu avô, e era dia dos pais.

O encontro durou até as cinco da tarde e depois nós fomos para casa. Minha mãe não estava lá. Em seguida recebemos uma ligação da polícia. Ela foi assassinada. Naquele mês ela foi a oitava a ser assassinada, e todas morreram da mesma forma, todas tiveram a cabeça decepada. Meu pai enlouqueceu. Ele se sentia culpado por deixa-la sozinha. O pior foi invadir o necrotério onde o corpo dela estava, e ainda me levando junto. Cinco anos depois ele saiu de casa e não nos falamos mais. Aqueles cinco anos de convivência apenas com meu pai surtado foram os piores da minha vida.

O louco Waite, como passou a ser chamado pelos vizinhos, começou a investigar por conta própria quem teria feito aquilo com todas aquelas mulheres. O pior é que logo ele começou a mexer com coisas estranhas, livros de bruxaria, imagens demoníacas, e tudo de mais arrepiante que possa existir. Quando eu perguntava ele sempre falava que não era algo desse mundo que tinha levado minha mãe.

Eu achei que odiava meu pai, por não cuidar de mim quando mais precisava, por ter fugido sem nenhuma explicação, por ter me abandonado sem ninguém. São vinte e cinco anos sem vê-lo e não tenho a menor vontade de quebrar essa escrita vendo ele morto. Prefiro não vê-lo nunca mais. Por isso vou direto fazer o que ele pediu para que possa me livrar de vez desse tormento.

Encontrar a casa não foi difícil, o endereço estava claro e aquilo era bem afastado de qualquer tipo de vizinhança. Ao adentrar vejo que o advogado Kevin tinha razão, aquilo era um show de horrores. Ele não tinha descrito muito bem o lugar mas nunca achei que seria assim. Tinha animais estranhos em potes, tinha livros velhos, um cheiro de mofo em tudo, e o mais estranho, tinham muitas garrafas, garrafas de vidro vazias.

Aquela que me foi destinada continuava sob a mesa e logo a recolho. Não penso em passar mais tempo ali e por isso corro de volta ao carro. A viagem durou umas duas horas, e para encontrar o Holt em Drammen levaria no mínimo mais umas três. Saio pela estrada com a garrafa me perguntando o que ela tem de tão especial.

Ao chegar na cidade já está bem tarde mas prefiro ir direto ao endereço deixado por meu pai. Parece estranho mais a casa é mais estranha ainda. Era feita de madeira e mesmo assim era bem grande, com três andares. Nem preciso bater na porta para que um velho barbudo e cheio de rugas sinta minha chegada e abra a porta.

– Você deve ser o Waite júnior! Entre, entre por favor.

Como isso é possível, eu nunca vi aquele velho na minha vida mas ele parece que estava ansioso por minha chegada. Talvez ele tenha respostas para o que aconteceu ao meu pai.

– Você deve ser o senhor Holt. Já estava me esperando?

– Sim, mas é claro! Seu pai me falou que viria.

– Vocês se conheciam bem?

– Nós erámos íntimos durante um tempo nós caçávamos juntos… quero dizer, nós saíamos para nos divertir sempre que possível.

Engraçado ver alguém que você não conhece mentir tão descaradamente. Caçar? Divertir? Nunca imaginei que meu pai pudesse fazer isso.

– Eu trouxe uma coisa que ele pediu para te entregar.

– Oh sim, isso mesmo. Me entregue com cuidado, isso em suas mãos é muito importante.

– Por que isso aqui é importante? E porque tem tantas garrafas como essa na casa dele? – apesar disso eu entrego a garrafa a ele.

– Não se preocupe Waite júnior, tudo em sua hora. Mas antes vamos tomar um chá que preparei, e você também deve estar com muita fome.

De fato aceito sem cerimônia, passei o dia inteiro dirigindo e faminto.

Agora estou aqui, quase morto depois de um acidente, meu carro prestes a explodir. Ainda não me lembro o que aconteceu na casa do Holt nem porque estou de volta a Hamar. Só quem pode me responder é o Holt. Tento ir até ele, mas nesse momento caio de joelhos. Estou sem forças.

Na minha frente ele se levanta. Seu corpo parece estar cheio de ferimento mas ele parece não ligar.

– Holt! Como isso aconteceu? O que estamos fazendo aqui?

Ele passa por mim sem dizer nada, pega um dos canos que estavam ligados ao motor e me acerta em cheio na cabeça.

Acordo. O que é isso, porque estou passando por isso? Holt está na minha frente mexendo em um livro. Estou amarrado em uma cadeira. Isso prova que eu não estou sonhando, ou se estou esse pesadelo não vai ter fim nunca.

– Você acordou Waite júnior! Não sabe como foi difícil te arrastar até aqui. Aquele maldito do seu pai me paga quando voltar! Eu falei que não daria certo dividir a alma em tantas partes. A parte que estava na garrafa não teve controle total sobre seu corpo. Mas ao juntar todas as partes que estão nessas garrafas ele vai retornar, ele tem que voltar.

Pois é. Pelo que entendi eu fui drogado na casa do Holt, ele colocou uma parte da alma do meu pai – que estava dentro daquela da garrafa – no meu corpo. Como só era uma parte da alma meu pai deve ter perdido o controle sobre meu corpo e por isso houve o acidente. Isso realmente me assustou.

– Como isso é possível? Dividir a alma? Colocá-la em meu corpo? O que isso significa?

– Isso é bem simples meu jovem. Um ano atrás, quando eu e seu pai pegamos o demônio que estava possuindo as pessoas em Oslo e matando aquelas mulheres, nós só queríamos nos livrar dele. Mas ele nos ofereceu algo. Uma forma de ser imortal! Ele mostrou como separar a alma de nossos corpos e depositá-las em qualquer outro. A ideia era encontrar corpos jovens para colocarmos nossas almas e vivermos mais décadas e sempre repetir o processo. Seu pai queria saber mais e por isso não o devolveu ao inferno naquele dia.

“Nós o prendemos e o torturamos, com isso seu pai aprendeu que era possível separar a alma em várias partes, deixa-las guardadas. Eu sempre insisti em mandar aquele demônio de volta pra o inferno mas ele não me ouvia. Seu pai já derrotou muitos monstros e salvou muitas vidas, mas o câncer que o estava matando não ia dar mais tempo para continuar com essa vida de caçador. Durante esse ano ele se preparou até ter a solução para o problema: ele quer possuir seu corpo! A alma dele com seu próprio sangue, o mesmo que corre nas suas veias Waite júnior vai tornar a transferência um sucesso!”

– Espere Holt! Esse tal demônio deve ter enganado vocês! O que aconteceu com ele?

– Ele está bem abaixo de nós, no porão de seu pai.

Parece que foi como um chamado. O chão abaixo de Holt se abriu, o demônio em forma de homem surgiu e o decepou usando a cadeira onde esteve preso. Ele parou em minha frente.

– Você deve ser o Richard! Sua mãe te amava muito, quando arranquei a cabeça dela ela só sabia falar “Senhor, abençoe o Richard, abençoe meu filho”. Foi interessante acabar com ela, não existia medo de mim em seus olhos, só tinha medo de você não ter uma boa vida. Sabe, meu trabalho é pegar as almas e vende-las. Você não tem ideia de como é desejada a alma de uma mulher pura como a sua mãe, mas aqui está ela. – ele me entrega um pingente, o mesmo que minha mãe usava – Prometi para mim mesmo que guardaria ela e te devolveria. Isso me ocorreu depois de tentar vende-la várias vezes, mas ela estava bem protegida, ela tem a proteção de você sabe quem e não tem mais serventia para mim.

Não sei como reagir aquilo tudo, mas acabo pegando aquele pingente.

– Bom, foi divertido enganar seu pai durante esse tempo, agora posso vender um décimo de alma ao preço de uma inteira, e todas elas bem engarrafadas, hahahahaha.

Nesse momento ele junta todas as garrafas da casa com uma velocidade incrível e depois some. Naquele instante sei que minha vida se tornou um pesadelo eterno e que durante o sono talvez eu não sentisse tanto medo como quando estou acordado.

 Autor: Jonatan de Sousa Rodrigues


Conto premiado entre os 5 melhores no primeiro concurso de contos da livraria Nobel CG

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s