O Canibal da Borborema Ato IV – O Último Bater de Suas Asas

capa ato IV

07:00 horas.

Flávia Maxmiliano acordou com uma dor de cabeça de fazer frente a qualquer lutador profissional de boxe um dia depois de ter perdido uma luta por título. Além de sua cabeça latejar notou ao tentar erguer o corpo que a fratura no seu joelho e tornozelo doeram como nunca na sua vida. A dor foi excruciante e a fez derramar uma lágrima involuntária.

De repente uma torrente de pensamentos eclodiu na sua mente e ela falou pra si mesma até mesmo como uma confirmação de que ainda se encontrava no plano terrestre.

_ Puta Que Pariu! Estou viva!

Apesar da dor excruciante olhou o quarto em que estava, era pequeno devia ter 3m². Nenhuma estante. Apenas um colchonete em que ela estava deitada, uma luz que vinha de uma mini janela retangular no alto. A porta parecia ser de ferro e só de olhar ela viu que estava trancada por fora, não tinha maçaneta e nem fechaduras.

Ela gritou.

Até mesmo esse simples ato causava dor, mas não obteve resposta. Tentou levantar sem sucesso e como a dor era terrível ela mal tinha percebido que sua perna estava imobilizada de maneira rudimentar e tinham alguns curativos onde a lesão tinha sido mais grave, logo abaixo do joelho. Algo que sem o devido tratamento infeccionaria com certeza.

Gritou outra vez e mais algumas, ao ver que não obteria reposta começou quase que didaticamente a refazer seus passos. Começando logo depois do maldito Canibal ter estraçalhado suas pernas e a abandonado para morrer contra “aquelas criaturas horrendas”. Por mais que não quisesse lembrar ela podia sentir o cheiro fétido de enxofre que saia de suas bocas cheias de dentes desproporcionais, a face protuberante daquelas aberrações semelhantes a cachorros negros como a noite. Os uivos estridentes e perturbadores que faziam seu medo ferver.

Construiu a cena novamente com a riqueza de detalhes que a fazia sofrer apenas de pensar.

Recordou de como o primeiro cão entrou na sala sedento pelo seu sangue como um tubarão.

De sua agonia para chegar até a arma e da incessante luta com ele até conseguir com uma força advinda da própria agonia matar o primeiro cão derrubando a mesa em cima do pescoço dele.

De rastejar ferida até o fundo da sala e se dar conta que a arma só tinha uma bala.

Da chegada de mais três cães negros farejando o sangue e a morte presentes no local.

De como pensou em se matar e acabar com a agonia. Sim, de como pensou em se matar e acabar com aquele maldito pesadelo.

De como não abandonou a vida, esperou até o ultimo segundo e atirou bem na cara do segundo cão enquanto os outros dilaceravam sua carne.

Não lembrava mais de nada, todo o resto das lembranças era um borrão em sua mente. Olhou para os braços e viu que eles também tinham curativos assim como na sua barriga. Ficou tentando lembrar quem poderia tê-la salvo e de repente o pânico tomou conta dela. Será que o Canibal tinha voltado e a salvado para torna-la mais uma vítima?

Não! Afastou esses pensamentos de si e apenas dormiu.

15:00 horas.

Flávia despertou com um gosto extremamente amargo na boca, quando a boca encheu de um liquido pastoso ela colocou tudo para o lado e viu que vomitava sangue. Uma dor agoniante tomava o lado esquerdo de suas costas e ela respirava com dificuldade. Por mais que quisesse não admitir ela sentia que estava morrendo. Que sem cuidados médicos apropriados ela não passaria daquela noite.

Tentou erguer o corpo. Escutou o som de uma porta abrindo.

Passos.

Seu coração se encheu de esperança.

Tentou falar e viu que o simples ato doía bastante. Mas falou mesmo assim.

_ Por favor. Me ajude.

Os passos se distanciaram.

Ela quase chorou e repetiu a súplica.

Silêncio.

Aos poucos ela escutou o som vagaroso dos passos voltando e parando atrás da porta. A voz que vinha do outro lado era doce e quase fraternal.

_ Desculpe por toda a situação que você está passando. Eu tentei salvar a sua vida mais falhei miseravelmente no processo. Consultei alguns livros de medicina no tempo que me resta e você vai morrer em menos de seis horas.

Flávia não conseguiu digerir a informação. Sabia que estava muito mal, mas não achava que pudesse estar recebendo a noticia de sua morte daquela maneira. Era cruel e sem sentido.

_ Quem é você? Porque estou aqui?

_ Nós nos conhecemos bem. E esse é um dos motivos pelos quais eu abri mão do meu maior dom para tentar salvar você.

Ela notou que ele tinha ajoelhado do outro lado da porta. Podia ouvir a respiração entrecortada dele. Conhecia a voz. A voz lhe era familiar. Não sabia quem era, mas lhe fazia se sentir melhor automaticamente.

_ Marcos Uriel Castro. Da DSPC. Nós nos conhecemos depois de você ter terminado o noivado e desde então eu me apaixonei por você. A mortal mais verdadeira e autentica que qualquer um poderia querer conhecer.

Flavia não conseguia digerir nem metade das coisas que ele falava. Mas lembrava da situação em que se conheceram. Ela buscava sexo rápido, depois de uma semana estressante. Se conheceram em um bar, ela deu carona para ele e depois de mais de meia hora vendo tv na casa dela, ela praticamente o atacou e fizeram um sexo satisfatório para ambos. Quer dizer pelo tom das afirmações bem mais satisfatório para ele.

_ Por favor abra a porta. Preciso de um hospital não posso ficar aqui.

Ela continuava a pedir e cada vez as palavras saiam mais baixas de sua garganta.

Tossiu sangue.

_ Pelo Amor de Deus me deixe sair!

_ Não posso _ A voz dele tomou uma melodia triste.

_ Por que?

_ Se eu lhe contasse você iria se assustar e teria uma morte ainda mais dolorosa. Prefiro que você não saiba o que eu sou.

Uma sensação de mal-estar se misturou a agonia dela, e com talvez as poucas forças que ainda tinha ela vociferou.

_ Puta Que Pariu! Eu estou morrendo Marcos! Fale qualquer coisa que você tenha de dizer sem rodeios. Depois de ontem eu acredito em qualquer coisa! Por favor.

Ela sentiu ele respirar de maneira pesada e então falar.

_ Meu nome não é Marcos. Sou Uriel III. Sou um condutor, um guia de vidas e almas, administrador de boa fé e observador passivo da maré dos homens. Em outras palavras sou um anjo e por ter interferido no curso do destino estou morrendo. Assim como você.

Flávia parou alguns instantes. Tentou respirar. Estava cada vez mais difícil. Seus nervos estavam abalados. Muita informação. Muita informação mesmo. E apesar de tudo pelo que tinha passado ela ainda estava cética em parte quanto aquilo.

Em todos seus anos de estudos e investigações sempre acreditou que a maioria das coisas eram apenas advindas de crenças, fatores sociais e culturais movidos através dos séculos e da própria falta de capacidade humana. Isso nos levava a acreditar nas mais diversas bizarrices ou nos deixávamos levar por ocultismo barato e conversa fiada. E mesmo depois da noite passada e do estado que ela se encontrava. Sua mente analítica não podia digerir a existência de um anjo.

O mundo de repente escureceu, sentiu uma fraqueza momentânea e desmaiou mais uma vez.

flavia maxmilliano

18:44 horas.

Flávia acordou com o barulho de um grito aterrorizante vindo do outro lado do quarto. Um grito de dor tão extremo que seus ouvidos doeram. Logo depois junto aos urros o som de moveis quebrados e caindo.

Ela estava extremamente assustada. Por um momento a adrenalina do susto fez ela esquecer as dores e a investigadora levantou de um sobressalto. Mas foi apenas um momento. Rapidamente todas dores voltaram e ela podia sentir o liquido quente escorrer de suas feridas que tinham aberto. Não podia ver os ferimentos pois o quarto estava completamente escuro, a única luz era de flashs de iluminação provavelmente de um abajur que faiscava do outro lado da porta de ferro. Apesar de todas dores e medo ela lembrou da conversa e de Marcos ter dito que era um anjo. Chamou por ele.

_ Marcos?

_ Não sou Marcos… _ A voz não era mais doce e fraternal…era de um sofrimento gultural. _ Me chamo Uriellll!

Flávia vislumbrou flashs saindo do outro lado da porta que não pareciam saídos de um simples abajur quebrado. As luzes invadiam o quarto em que ela se encontrava, transformando o pequeno lugar em um teatro de sombra e luz.

Segurando o medo ela perguntou.

_ Me diga o que está havendo? Porque você também está morrendo?

Apenas urros de dor do outro lado da porta. E depois uma pancada com a mão que simplesmente amassou a porta de ferro deixando o formato da mão do anjo espalmada no ferro bruto, iluminando todo o “amassão” com um azul vivo.

Depois silêncio e escuridão.

Alguns minutos depois enquanto Flávia tentava segurar o choro , ela ouviu passos e luz vindo para perto da porta de ferro.

Marc… Ou melhor como ele se chamava, Uriel falou. A voz ainda era brutal e sofrida.

_ Vim me desculpar pela última vez. Parece que o tempo que me resta será menor que o seu. Você me perguntou o motivo da minha extinção. Eu lhe direi como um presente final.

A luz que entrava pela porta esquentava o quarto e de certa maneira dava um pouco de conforto a moribunda Flávia.

_ Nós seres celestiais recebemos algo chamado “Dádiva”. Esse dom dos céus nos garantem várias habilidades especiais e vantagens comparados com vocês seres mortais. Apesar do ceticismo instalado na mente de vocês é inacreditável o quanto vocês podem nos superar em vários aspectos apenas com força de vontade, treinamento e acima de tudo fé. Por isso talvez vocês sejam tão apaixonantes.

Flávia apenas ouvia. Não distinguia mais entre o real e irreal. Apenas ouvia.

_ Nós somos seres feitos da primeira tentativa de Deus de criar a humanidade, mas ele nos fez muito evoluídos e com um senso de propósito de servir ao criador que acabou por nos tornar imperfeitos na nossa própria perfeição. Por isso quando ele criou vocês ele lhes deu o maior dom de todos, livre arbítrio. E nós fomos transformados nos guardadores desse dom, e eu quebrei a regra de não interferir no livre arbítrio quando salvei você dos Caninus Infernallis.

Flávia já havia estudado muito o conceito de livre arbítrio. Muitas de suas investigações recaiam nesse conceito e muitos psicopatas usavam de tal termo para dar uma explicação as suas atrocidades. Pelo que lembrava Deus havia criado os humanos à sua imagem. Ao contrário dos animais, que basicamente agem por instinto, nós seríamos um reflexo de nosso Criador no sentido de que somos capazes de demonstrar qualidades como amor e justiça. E, assim como ele, nós teríamos livre-arbítrio.

O anjo a interrompeu em seus pensamentos com um urro de agonia, a luz irrompeu em tons de azuis claros e ela sentiu o cheiro de carne e moveis queimando.

_ Marcos! O que houve? _ Perguntou ela.

Uma terceira voz se alastrou pela sala. Era fria e grossa.

_ Uriel III. Sua Extinção está fora de controle. Fui mandado pelo coro Arcano para selar a sua energia e leva-lo a prisão de paradisia. Vou selar o apartamento.

Uma luz dourada tomou o lugar. Diferente da luz azulada essa era fria como águas de um rio.

_ Não poderia acreditar que ainda em minha existência eu teria o prazer de encarar um anjo de ébano. Haniel, O Selador. Infelizmente não posso deixar que interfira na minha Extinção. Essa é a única forma de talvez salvar a vida dela.

_ Blasfêmia! O que você está falando Uriel III é loucura. Temos dogmas. Você está me dizendo que os quebrou para salvar uma mortal. E está acelerando seu processo de extinção deliberadamente e fora de controle em uma zona populosa apenas para tentar liberar luz pura e curá-la de “chagas de caídos”. Não permitirei.

Flávia escutou um uivo e o som de choques de lâminas, as fagulhas iluminavam o seu pequeno mundo que se resumia ao quarto. Não tinha mais voz. Estava paralisada. Depois de alguns instantes a provável batalha cessou. E a voz fria quebrou o silêncio.

_ Impossível. Um anjo de casta menor conseguiu me atingir. Realmente eu subestimei o poder que você poderia atingir dentro de um processo de Extinção. Mas é apenas um braço. Eu o recuperarei em breve. E você… Pareee!!!

A voz foi cortada por um zumbido como de um motor de jato entrando em ignição. O barulho era ensurdecedor e de repente uma explosão de luz azul invadiu o quarto em que Flávia estava. A onda de energia se apoderou de seu corpo e ela podia sentir cada celular se desfazer e se refazer novamente como se seu corpo estivesse implodindo. Todas suas roupas queimaram, mas não sua pele. Sentia que algo tentava sair de suas omoplatas  rasgando a carne, mas rapidamente a energia conteve o rasgão. Foi arremessada contra a parede e depois do primeiro choque se contorceu enquanto as feridas, sangramentos e chagas eram curadas quase que instantaneamente. Um brilho azul emanava de seus olhos como uma fumaça que cintila no ar. Ela sentiu o coração acelerado. Era como se tivesse sido jogada no universo no momento do big bang e ainda assim estivesse viva. Dentro de seu mais profundo subconsciente escutou a voz de Marcos ou melhor Uriel falar: “Meu último presente para você”.

Ficou de pé.

A porta de ferro tinha derretido completamente com a explosão e um homem de quase 2 metros de altura, negro como a noite olhava para ela do lado de fora do arco destruído. Sua expressão era fria. Ele não tinha um braço e a metade esquerda do rosto havia simplesmente desaparecido. Mesmo assim Flávia compreendeu quando ele falou.

_ Diga-me seu nome mulher.

Ele falou em uma língua estranha que ele demorou milésimos de segundos para compreender, as palavras se embaralharam em sua mente e em um passe de mágica se reorganizaram e ficaram compreensíveis. Ao responder ela já tinha assimilado o novo idioma.

_ Flávia Maxmiliano.

O homem de ébano fraquejou. Ela fez menção de se aproximar, mas com o braço restante ele sinalizou para que ela parasse.

_ Você mulher, passou pelo que chamamos em nossa cultura de “O Suspiro” dentro dos registros de prata da biblioteca de Celestina apenas outros dois mortais passaram por esse processo e sobreviveram. Na minha atual situação não posso leva-la pela travessia para o Coro Arcano julgar o que fazer com a sua existência. _ Ele parou e fez uma careta com o que restava do rosto, sem dúvida ele sentia dor _ Vou deixar você livre até que eu me recupere e retorne. Volte a sua casa e tente não ser vista. Não contate família, nem amigos. Sua predileção não é mais de um ser mortal mulher. Agora você é uma meio-anjo.

Antes de terminar de falar uma luz em espiral escura envolveu o homem e ele ao se ajoelhar sumiu dentro dela.

Flávia caminhou pelo apartamento destruído enquanto escutava sirenes do que deveriam ser os bombeiros. Percebeu que estava completamente nua ao passar por um espelho estilhaçado. Viu um quarto, e lá pegou um moleton vermelho com capuz e uma calça preta de corrida da adidas. Achou-se com mais do que o suficiente para sair à noite na Rainha da Borborema.

Agora ela sabia que o mundo era tão pequeno quanto o extinguir de uma estrela, todos os seus sonhos, devaneios e medos eram reais. Mas a realidade era muito melhor que a apatia de uma vida comum. Nesse momento ela só tinha um desejo e um desejo que corroía sua mente. Caçar o Canibal da Borborema.

Por Jefferson Lopes


Link para o ato I

meio anjo

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3 comentários

  1. Po a ideia é supimpa de fazer uma história circular dividida em atos..

    Achei a personagem muito louca… não sabia que ela iria tomar esse rumo…

    Quando sai o próximo?

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