O Pedido

Há pouco tempo abrimos espaço para que novos escritores mandassem seus contos para o site afim de terem seu trabalho exibido… Essa é o primeiro conto divulgado sob o Selo Nerdofobia Horror. Esperamos que seja a primeiro de muitos…
Selo nerdofobia horror #1

A pálida luz da lua, enaltecida pelo espesso véu negro da noite, tecia seus braços luminosos tocando agora a superfície de um mundo ainda jovem, e como tal, completamente tomado pelo delírio de ser, vagando, perdido, por entre as próprias fantasias.

O longo e silencioso suspiro das arvores fora quebrado conforme pesadas botas de couro deformavam o solo logo abaixo de si. Uma respiração ofegante roubava-lhe a vez da fala, ocupando todo o ar que dançava friamente ao seu redor. A tensão, denunciada pelas gotas de suor que escorriam lentamente sob a pele, crescia a cada passo dado em direção ao destino traçado nas paginas amareladas de um antigo exemplar, envolto em uma grossa camada de pano, repousado sob o braço. Embora antigo e maltratado pelo tempo, trazia ainda consigo a beleza que tivera no dia em que fora escrito. Sua capa ornamentada em couro batido, já desgastada e sem brilho, não deixava a restar duvidas de que tal objeto fora moldado por sobre a mais fina matéria, e perdido em um tempo, que transcendente às lembranças, havia deixado de existir.

Os braços e pernas feridos pelo trajeto forçado mata adentro, perpetuavam sua interminável luta, abrindo caminho por entre os galhos secos e pontudos de uma mata cada vez mais fechada e densa. Os calçados já completamente subjugados pela lama sentiam dificuldade de manter-se num curso constante, resultantes à dor que agora percorriam os membros inferiores. E em meio ao silencio berrante da noite, a língua ressecada esfolava o céu da boca, repetindo para si mesma que agora faltava pouco.

Não demorou muito mais tempo para que avistasse, por entre os troncos negros, o reflexo proveniente das águas. Finalmente havia chegado ao seu destino. Exausto e ofegante, aproximou-se do lago, caindo sobre os joelhos e permitindo que a fria terra úmida se moldasse ao redor dos dedos de sua mão.

Após recuperar o fôlego, roubado pela árdua caminhada, repousou o velho livro bem a sua frente. Correu os dedos por paginas finas, porém muito pesadas, buscando aquela que era única entre tantas outras iguais. Suavemente fechou-se no escuro de sua mente, e tão solene quanto o gemido das arvores ao seu redor, começou a entoar uma prece cada vez mais alto.

“ Aquela que habita o coração negro de todos que são um ; Mãe da sombra e Rainha das trevas; Diante do pobre servo aparece-te; Do sangue dele ergue tua força; De sua alma eleva teu espirito; Conceda a este que lhe serve um suspiro de pedido.”

Abriu os olhos e correu sua visão pelo cenário que o abraçava. Tudo permanecia como antes, nem mesmo a Dama da noite mostrava, em seu percurso habitual pelo céu negro, que o tempo havia se passado. Sentiu-se decepcionado, porém dignou-se a tentar mais uma vez, afinal havia chegado até ali e alguma parte do todo merecia, por excelência de causa, ser real. Dessa vez curvou-se a ponto de sentir a terra fria beijar sua testa, entoando novamente sua prece, erguendo a voz o mais alto e encorpada quanto fosse possível para alguém entregue ao estado em que se encontrava. O vento cortava friamente as árvores que gargalhavam com o balançar de suas folhas. Se riam de prazer ou de histeria, aquela altura o pobre homem não sabia dizer.

O eco das palavras finais dissipou-se do ar, fugindo-lhe ao alcance dos ouvidos. Lentamente, e já sem esperança, levantou o corpo, e assim também  sucederam-se seus olhos. O susto o fez cambalear pra trás, caindo sobre a lama escura formada pelo abraço gélido entre a água do lago e a terra que lhe servia de cálice. Ali, caído e paralisado pelo medo, emitia um forte grito de pavor, audível apenas ao ouvido daquelas que outrora já foram chamadas de almas.

“Quem és?” Disse uma voz antiga arrastada, oriunda de um vento esbranquiçado. “O que queres vindo até aqui?”

Ainda tremulo, o homem avistou o livro que agora dormia tranquilamente nos braços daquela que lhe falava.

“E-eu..” Tentou responder, mas as palavras pareciam agarra-se a sua garganta como se temessem ser pronunciadas.

Longos cabelos brancos ondulavam junto às vestes de mesma cor, dissolvidos num caminhar elegante, dado para fora da água escura.

“Quem és, e o que queres aqui?” Indagou a voz num tom mais forte e imponente.

“Um.. um lenhador, apenas isso…” Conseguiu dizer, sem olha-la nos olhos, se é que a coisa também os tinham. “ Vim da Velha cidade.”

“Hmm. Então ela ainda existe?”, disse a entidade como se lembrasse de algo há muito esquecido. “ Vocês são como uma praga que se alimenta do próprio veneno. Tão persistentes quanto inconvenientes… Porém, não viverão por muito mais tempo.”

Continuou a aproximar-se devagar. Suas vestes se arrastavam sobre a terra escura, muito embora parecessem tão limpas e claras quanto às tardes ensolaradas de verão.

“Onde encontrou esse livro?” Questionou de forma pesada e acusativa. “ Não deveria homem nenhum tê-lo!”

“En- encontrei-o. Não o roubei, eu lhe juro… eu juro.” Respondeu, lutando para olha-la diretamente. “ Tentei lê-lo, mas não o compreendi. Apenas a parte que me trouxe até aqui.”

275081_Papel-de-Parede-Ave-na-Floresta-Escura_1366x768

O vulto branco, que parecia tremular entre diferentes estados de matéria, ora solido como rocha, ora intocável como uma miragem, caminhava ao redor do lenhador ainda jogado no chão. Seus olhos acinzentados contemplavam o vazio, como se estes se perdessem perante o vislumbre de um mundo invisível para quase toda a existência.

“O que queres de mim?”, perguntou ao parar frente as costas do homem.

Após um silêncio que permitiu que o longínquo murmúrio do bosque fosse por eles ouvido, o homem ergueu o rosto a contemplar o céu que cobria-lhes com seu manto bordado em estrelas.

“Eu quero viver para sempre!” Foram as palavras que saltaram graciosamente de seus lábios.

“Pois que assim seja.” Disse a antiga figura branca enquanto caminhava em direção ao lago, ajoelhando-se a sua margem.

“O-O livro mencionava um preço…” Disse o homem em voz baixa.

“Não te preocupes quanto a isso, criança. Não faço de tudo por aquilo que recebo, quanto mais a quem me veio com tão forte e honesto desejo.” Respondeu solenemente.

Enquanto caminhava de volta ao ainda caído lenhador, o reflexo vindouro das águas parou de sorrir em sua superfície, que agora se mostrava completamente negra e opaca. O ar tornou-se surdo e pesado, decaindo na escuridão a cada passo dado pela entidade, que permanecia tão clara e luminosa quanto o dia.

“A lua escondeu-se sobre as nuvens… Tão distante, mas ainda assim tão sábia. Não achas?” Murmurou ao se abaixar diante do homem que tremia sem saber o que o aguardava.

Aproximou os finos dedos cobertos pela espessa lama do lago em direção ao rosto assustado.

“Abra-te os olhos!”

Tão logo o lenhador descolou as pálpebras tremulas, tudo o que outrora conheceu tornou-se escuridão e vazio.

    *****

Grossos dedos enrijecidos pelas constantes esfoliações e cascas de feridas, arranhavam a superfície rugosa de algo que um dia aprendera a chamar de árvore. Palavra está que vagava perdida de significado em sua mente, tal qual todas as outras que ainda mantinham-se, estranhamente, agarradas à sonhos muito distantes.

Enquanto arrastava-se sobre a terra seca de um mundo esquecido, tateava cegamente o caminho a sua frente, movido por um desejo que gemia, retorcia-se e gritava, envenenando sua alma com o fervor da agonia. A fome não o permitia descansar, envolvendo-o num ciclo eterno que jamais chegaria ao fim. O alimento comum, por assim dizer, não mais o saciava, e o desespero irracional em agarrar-se insandecidamente à própria vida, era a única coisa, que em meio a tanta confusão, norteava sua mente.

O mundo escuro que o cercava, de súbito mudou de repente. O ar opressor ganhou espaço, circulando e brincando ao seu redor, trazendo consigo um doce e sorridente aroma que adentrou suas narinas, preenchendo por completo os pulmões. Dentre todos os aromas que habituara-se a sentir, aquele domou severamente sua atenção. Era de fato diferente de tudo aquilo que um dia farejou. Criatura alguma que já cruzara seu caminho possuía um cheiro tão forte e atrativo quando aquele.

Levantou a cabeça buscando, através do faro, encontrar a trilha que o levaria até a fonte daquele aroma. Sua boca já deixava escorrer por entre os dentes o gosto, trajado pelo cheiro, de sua futura presa. Esgueirou-se lentamente pela vegetação muito mais leve e espaçada do que antes, como aprendera a fazer de forma tão exemplar em suas caçadas. Sorrateiramente aproximou-se de uma estrutura sólida, feita do mesmo material que sustentava o bosque no qual vivia. Ergueu as narinas tentando encontrar o faro novamente, e seguiu-o, circundando a estrutura.

277158_Papel-de-Parede-Floresta-Escura--277158_1366x768

Tateou aquilo que parecia uma fissura, uma falha, um caminho que o levaria diretamente à satisfação. Adentrou velozmente pela abertura, na certeza que sua presa de forma alguma o aguardava. Tão logo avançou exibindo unhas e dentes em um grito feroz, algo veio repentinamente ao seu encontro. Urrando para defender o filhote, o animal pôs-se o mais alto que pôde, a fim de fazer recuar aquele que atacava. O choque entre os corpos fez o ar vibrar, e o chão magoar-se ao recebê-los num abraço doloroso.

Rolando um sobre o outro, dançavam uma melodia agonizante, compassada por socos, mordidas e arranhões. O desespero pela vitória, embora motivados por questões diferentes, igualava-os como sopros dados a favor do vento, permitindo que apenas um se levantasse ao termino da luta.

Quando o suor da exaustão já banhava sua pele, o predador, num esforço descomunal, ergueu-se sobre o corpo de sua presa, cravando os dentes entorno do pescoço quente e macio. Os gritos de euforia e pavor massageavam seus ouvidos, enchendo-lhes de satisfação e calmaria. Os dedos, tal como garras, penetraram o abdômen da criatura, que já se entregava aos últimos suspiros de sua vida. O calor do sangue banhava sua alma, enchendo-a de paz e alivio, e a macies da carne mastigada em sua boca, saciava a infindável sede de seu corpo como nunca antes havia conseguido.

Satisfeito com sua caçada, e ainda coberto pelo fluido de vida que acabara de roubar, voltou novamente os sentidos ao ar que o cercava, ouvindo um som distante, mas ainda assim muito perto. Movendo-se como uma serpente, esgueirou-se pelo mundo negro, esbarrando e deparando-se com objetos que não mais compreendia, guiado por soluços abafados que em algum por alí lugar se escondia.

Tateou e cheirou um amontoado de objetos macios, diferentes de qualquer coisa que tenha encontrado no mundo do qual viera. O cheiro, agradável e perfumado, escondia outro muito mais doce em suas entranhas. Cavou e fuçou por entre os tecidos, lançando-os para todas as direções, como um faminto animal a revirar o lixo. Não demorou muito para encontrar o que com tanto fervor procurava. Agarrou com as mãos rubras, uma pequena poção de vida, que assustada, soltou um berro estridente e ensurdecedor.

Por um rápido suspiro, dentro da mente daquele que um dia fora um simples lenhador, e como homem que era, moldado pelo medo, o som, que agora rasgava-lhe os ouvidos, foi compreendido como um choro, o choro de uma criança.

De forma lenta e graciosa correu seus dedos sobre a pele lisa que berrava em seus braços, aproximou-a do rosto, sentido o calor transpassar e beijar-lhe a pele seca e sem vida da face. Tocou os lábios grossos e ressecados sobre a carne macia, permitindo que o cheiro adentra-se lentamente por suas narinas, enquanto perdia-se doce sabor de carne viva.
384244__house-in-dark-forest_p

Todas as noites a lua abraça carinhosamente um mundo corrompido, envolto pelas trevas e esquecido pela luz. Dentre os montes e florestas, cavernas e cidades, rios e oceanos, estão aqueles, para quem a lenda do homem que tornou-se demônio ao devorar a própria família, viverá para todo o sempre.

                                                                                                    Por Caio Karoba

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s