O Canibal da Borborema Ato V – O Cão Chupando Manga

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04:00 horas.

José Inocêncio continuava acordado.

A insônia foi um dos traumas que ele havia adquirido depois do encontro surreal com Nair e de toda a mudança ocorrida na sua vida na última semana. Toda vez que dormia sonhava com o ocorrido, depois de um tempo o sono simplesmente não vinha.

Outra coisa que o perturbava era o sumiço de Efferson seu melhor amigo e da sua ex-noiva que também continuava desaparecida.

Levantou da cama.

Pôs a calça de pijama vermelho e foi até a varandinha do duplex.

A chuva incessante como sempre caia em uma garoa tão fina que rodopiava com o vento e fazia um bailar hipnotizante no contraste com as lâmpadas dos postes ainda acesos.

O deserto da rua se equiparava com o deserto da alma do próprio Inocêncio. Aos poucos via o quanto sua vida se tornara vazia. O frio tomou seu corpo e ele voltou para dentro.

Insônia. Insônia. Insônia.

Saco. Saco. Saco.

Frio. Frio. Frio.

Deitou.

Por sorte não precisaria trabalhar essa semana, devido a morte de um familiar do seu chefe.

Ligou o notebook.

Na net tudo que via era noticias, fakes e memes sobre o Canibal da Borborema e toda a tragédia do DSPC. O pior era que ele verificava tudo referente ao fato e seu ânimo descia ao sétimo inferno no processo. Notou que em uma página de solidariedade para as famílias dos mortos tinha um redirecionamento para ajuda profissional. Uma espécie de grupo de apoio para confortar e dar assistência psicológica aos parentes das vítimas.

Por coincidência uma das psicólogas era uma amiga das épocas de ensino médio. Pensou que talvez precisasse de ajuda profissional, não só pela insônia mas para tentar superar todo o trauma.

Falou com Dominique pelo facebook. Ela continuava solicita como sempre e marcou uma hora para ele naquele mesmo dia. A tarde. 13h.

Fez café, bebeu e esperou.

12:56 horas.

Inocêncio estava sentado esperando a sua vez no consultório de sua amiga. Era um lugar pequeno e aconchegante. Ficava no fundo de um conjunto de salas comerciais em um prédio na prata.

Depois de cinco minutos olhando para o aquário e vendo o bailar dos peixes a porta abriu e saiu um cara extremamente grande de dentro. Ele era alto, um pouco acima do peso, mas com o porte parecia mais uma massa compacta do que fora de forma. Careca e com um colar de contas gigantes no pescoço.

Deu boa tarde a Inocêncio que respondeu e antes que saísse se virou para ele e falou.

_ Desculpa, mas você já jogou rugby?

Inocêncio ficou meio sem entender, no fim deu de ombros.

O gigante tirou um encarte do bolso e entregou a Inocêncio:

_ Aparece lá. Temos treinos todos sábados à tarde. Com certeza vai te interessar. Você tem um porte atlético que combina com o esporte.

Apertou a mão dele. Um aperto forte. E saiu.

Dominique apareceu logo depois. Cabelos rosa, curtos e um sorriso desproporcional no rosto. Bonita com seu olhar sempre profundo.

Se cumprimentaram. Três beijos. Ela sempre cumprimentava com três beijos.

O acompanhou até a sala.

O ar.

A luz.

O som.

Tudo era feito para apaziguar e confortar as pessoas. Inocêncio viu que até a disposição dos moveis devia ser de acordo com Fengshui ou alguma porra do tipo.

Sentaram e ele contou aos poucos tudo que havia acontecido nas últimas semanas. Desde o canibal, até Nair e o sumiço de Efferson e Flávia. Ela o escutou pela maior parte do tempo, fazendo algumas perguntas pontuais. No fim ela deu o pré-diagnóstico pois disse que em uma consulta de uma hora não dava para avaliar toda a extensão do caso dele.

_ Bem Inocêncio você está com o que chamamos de estresse pós-traumático. Você revive o trauma através de flashbacks e pesadelos. No seu caso em especifico seu organismo está evitando dormir para que os sonhos não venham. É comum em casos como o seu.

_ E quer dizer que isso é grave?

Ela o fitou com um olhar despreocupado.

_ Depende de você. Como acredito que você deve praticar esportes, eu sugiro que desenvolva uma terapia de ocupação do seu tempo e otimização de suas práticas esportivas para preencher seu tempo e em termos simples vencer seu estresse no cansaço. Não vou mentir com apenas uma sessão não posso me estender sobre seu caso, mas talvez isso funcione. Se precisar você sabe onde me encontrar.

Ela sorriu de forma cortês e se cumprimentaram com um abraço.

Ele saiu.

Quando já estava na porta para rua, Dominique o alcançou trazendo um livro na mão.

_ Espere! Eu quase esqueci. Lembra-se que na confraternização final do colégio a gente fez um amigo secreto só que eu adoeci e acabei não indo? _ ele assentiu com a cabeça_ Eu guardei seu presente, mas já que nos reencontramos depois de tanto tempo resolvi te entregar. Desculpa por não ter entregue antes.

Ela sorriu e entregou.

_ Talvez ajude a te entreter.

Ele abriu o saquinho vermelho com um feixe de laço.

_ O príncipe, Maquiavel. Interessante. _ Ele exclamou.

_ Pois é. Na época eu achei sua cara. Hoje já não sei.

Se abraçaram de novo, ele pôs o livro na mochila e saiu na chuva.

14:29 horas.

Estava no ponto de ônibus. A chuva seguia na sua dança da garoa incessante. Isso deixava o astral de Inocêncio ainda mais down.

Uma estudante colegial se juntou a ele debaixo da marquise da parada se protegendo da chuva. Deu boa tarde e tentou puxar assunto. Ele a cortou. Estava de mau humor.

Pegaram o ônibus. Ele sentou na penúltima cadeira.

Na janela.

A moça sentou do lado oposto dele. Ainda o fitando as vezes.

Três paradas depois, entraram três elementos não muito agradáveis dentro do coletivo. Inocêncio preveu o pior já que tinha passado por essa mesma situação inúmeras vezes. Um dos supostos assaltantes ficou na frente do ônibus os outros dois foram para o fundão.

Modus Operandi básico de assaltantes de transportes coletivos. Inocêncio já podia ver a cena. Um renderia o motorista os outros dois tomariam os pertences dos passageiros e sairiam de forma rápida em qualquer bairro menos povoado. Ele só não poderia prever o nível de truculência da ação. O que estava mais a frente era de porte menor, os outros dois mais encorpados, mais não tão fortes. Na mão limpa Inocêncio levaria vantagem contra os três juntos se brincar, mas com certeza eles estariam com armas de fogo. Logo reagir estava fora de questão.

Três paradas depois e o show começou.

O mais fraco dos três pulou a roleta sacou uma faca e anunciou o assalto rendendo o motorista, os outros dois também gritaram, um tinha uma faca enferrujada e o outro uma barra de ferro. Começaram a pedir os celulares, bolsas e mochilas dos passageiros.

Inocêncio já estava conformado. Entregaria os pertences mais uma vez. E prestaria o B.O de novo.

Os malandros estavam quase acabando. Chegaram em Inocêncio e ele entregou a mochila sem esboçar reação dizendo que estava tudo dentro. O bandido pegou a mochila chamando ele de otário.

A colegial que tinha puxado assunto com Inocêncio se encontrava tão nervosa, que se enrolou com a bolsa, o marginal puxou e ela enroscou no braço da menina. O que rendeu duas tapas do marginal na cara dela que caiu no choro.

Nesse momento alguma coisa explodiu dentro de Inocêncio.

A revolta.

A impotência.

O nervosismo.

Sentimentos tomaram de conta dele, ele tentou os reprimir e manter o controle quando se deu conta que o livro que havia ganho ainda estava na mochila. Foi a gota d’água.

A fúria.

Levantou como que por impulso e com um swingue de cima para baixo deu um soco tão forte na nuca do marginal que este caiu em estado convulsivo.

O outro que estava com a faca rendendo o motorista viu a ação e gritou o xingando enquanto pulava a roleta de volta para o corredor. Como em um frenesi Inocêncio se jogou contra ele como um raio. Em meio aos gritos de medo dos passageiros. Eles se chocaram no corredor. O marginal deu uma estocada com a faca lateralmente da direita para esquerda visando o peito de Inocêncio, ele bloqueou com o braço, segurando no antebraço do marginalzinho, mas a faca ainda entrou 2 dedos no seu bíceps. Não suficiente para reprimir o gancho de direita que anos de pratica de boxe o havia feito desenvolver. O soco subiu como um jato explodindo na ponta do queixo do assaltante franzino, que apagou de imediato. Ele caiu e como ainda em um instinto de impulso Inocêncio tomou a faca e virou no momento exato que o terceiro meliante saltava com a barra de ferro visando sua cabeça.

Ato reflexo. Inocêncio já tinha lido sobre isso. É quando você age por reflexo a determinada situação, seja por treinamento ou apenas por condicionamento de prática. Foi o que aconteceu.

Quando a barra de ferro explodiu na lateral de sua cabeça ele simplesmente empurrou a mão direita com a faca na garganta do meliante.

O sangue jorrou.

A visão de Inocêncio ficou turva, sentiu suas pernas fraquejarem. Só então recebeu a segunda pancada do marginal que mesmo com a faca cravada na goela ainda o atingiu com a barra uma segunda vez, fazendo a cabeça dele tilintar entre o pescoço e a nuca.

Caiu de joelhos. Ia apagar e ouviu os gritos no ônibus dos passageiros e passageiras que partiam em seu socorro. Antes que o meliante desse o golpe final.

Pensou com alegria.

Reagi. Reagi. Reagi.

Dor. Dor. Dor.

Saco. Saco. Saco.

Desmaiou com um baque seco.

caniballl 2

13:57 horas.

Acordou um dia depois. No hospital. Seu pai estava sentado ao lado do seu leito. Tinha um soro no braço e um curativo na orelha. Sua cabeça e ombros doíam e ferviam como o caldeirão de uma bruxa.

_ Oi pai.

O pai levantou da cadeira e o abraçou.

_ Que merda tu tem na cabeça sujeito. Reagir a um assalto com os caras tudo armado. Cemitério tá cheio de heróis. Quer ser mais um?!

O pai dele era um ex-policial militar. 2º Sargento reformado. Tinha dificuldade de mobilidade por um problema no joelho e desde que sua esposa, mãe de Inocêncio, havia falecido devido um câncer tinha se isolado em um sitio na zona rural de lagoa seca. Era um homem simples e apesar de seus 74 anos ainda parecia vigoroso.

_ Não pai.

_ Sua sorte foram os outros passageiros. Os caras foram presos, o que tu enfiou a faca esta sob custódia na uti. Vai escapar o filho da puta.

_ Vou ser preso?

_ Não já falei com os meninos e com o delegado Jurandir. Isso morreu aqui. Não vai pegar nada para você. Tu ta se sentindo bem?

Inocêncio estava com uma puta dor, mas mentiu.

_ Só um incomodo na cabeça.

O pai dele apontou para orelha dele.

_ Tu perdeu um pedaço da orelha e o médico disse que vai ficar uns três dias com dor de cabeça. Nenhum traumatismo. Tu és cabeça dura mesmo que nem tua mãe dizia.

Ao citar a mãe o clima voltou a ficar triste. Apesar de todo o tempo ainda era uma porra de uma dor que não passava. E o afastamento do pai ainda era pior. Inocêncio tinha vontade de falar de tudo que tinha acontecido. De Nair. Da merda com Efferson. De Flávia. De como tinha superado seus medos e dado um salto para sair da inércia de uma vida de abusos. Mas havia uma distância, um buraco entre ele e o pai que ele não sabia como tinha começado, ou melhor talvez soubesse. O que era ainda mais angustiante.

_ Tu recebe alta amanhã. Médico disse que vai ficar hoje em observação e amanhã de manhâ está liberado.

Inocêncio sentia que o pai apesar de estar feliz por ele queria logo se ver longe dali. O velho pm tinha virado um estranho ao contato social e Inocêncio sabia que ele detestava hospitais.

Lembrou do livro.

_ Pai recuperaram minha mochila?

O pai apontou para mochila no chão perguntando se era aquela. Inocêncio confirmou.

_ Veja se tem um livro dentro.

O pai mexeu na mochila e tirou o príncipe de Maquiavel e o entregou.

_ Qual é a do livro?

_ Foi um presente de uma amiga.

_ Vê se não fica lendo. Vou ali fora fumar.

10:01 horas.

Ele recebeu alta e o pai foi com ele até o duplex. Se despediram, ele dormiu o resto do dia.

Sonhou com Nair. Com o conto do lobo mau, no entanto o lobo era gigante e perseguia ele pela floresta. Flavia era uma estátua com asas. Seu amigo Efferson também aparecia na forma de um sátiro. Ninguém falava. Ninguém o ajudava. Todos assistiam.

Acordou suado.

Sua cabeça doía. E lá fora a chuva.

Ficou de molho dois dias. Tempo suficiente para ler o Príncipe de Maquiavel. Achou o livro fascinante e fez um índice com o que ele considerou ser os princípios de Maquiavel na arte da ascensão ao poder. Entre eles destacou:

Zelai apenas por vossos interesses;

Não honreis a mais ninguém além de vós;

Cobiçai e procurai fazer tudo o que puderes;

Sede brutais;

Matai os vossos inimigos e, se for necessário, os vossos amigos;

Usai a força em vez da bondade ao tratardes com os outros;

Pensai exclusivamente na guerra.

Achou extremista. Mas eram tempos extremos.

Sentia-se melhor e mais disposto. A dor tinha diminuído consideravelmente nesses dias. Não podia voltar para o boxe ainda por causa da orelha, mas sentia que queria fazer alguma pratica esportiva. Lembrou do rugby por conta do flyer que o gigante havia lhe entregue. Tinha o usado como marcador de páginas do Principe. Treinos no sábado. Campo da UEPB. Atrás do Flyer tinha uma escritura a caneta preta. Ele não tinha reparado ainda. Na inscrição dizia:

DIGA AO CÃO A SENHA PARA VIRAR TITULAR…” O HOMEM É LOBO DO HOMEM! ”

Decidiu que iria. Achou interessante.

Na tarde seguinte estava na UEPB, o campo era meio isolado e ficava por trás do departamento de educação física. Chegou ao gramado e foi recebido por Arturo. Presidente do time e entusiasta do esporte que explicou sobre o projeto e algumas coisas básicas.

Inocêncio notou que todos pareciam muito empolgados. Apesar da garoa que caia fina, eles estavam em outras palavras até caricatos. Pareciam aquelas famílias felizes de comercial de margarina. Estavam naquelas rodinhas pré treino e cumprimentavam ele. Exceto por um baixinho entroncado de cabelos encaracolados quase cobrindo a cara e que chupava uma manga a beira do gramado.

Arturo notou que ele havia percebido o baixinho e falou.

_ Aquele ali é o nosso treinador. O cão.

Inocêncio se fez de desentendido.

_ Chamamos ele de Cão.

Inocêncio não pôde deixar de rir. A piada tinha vindo pronta.

_ O cão chupando manga.

Todos riram

Enquanto Inocêncio abaixou para amarrar a chuteira, viu uma massa compacta acocorado a sua frente. Era o Cão com a manga na mão. Tomou um susto e caiu sentado.

_ Oi novato aqui é meu time então se quiser ter a honra de treinar conosco deixa de graça. Todo mundo 10 voltas no campo. Ritmo de gente grande hein!

Todos se aglomeraram em filas e começaram a dar voltas no campo. Inocêncio no meio. O ritmo era forte mais sua prática no boxe o fazia ter um condicionamento privilegiado. Logo aguentou o aquecimento sem problemas. Aos poucos foi introduzido aos conceitos básicos do esporte. Em termos leigos se tratava de um jogo de ganho de território de forma dinâmica, onde cada time tinha que levar a bola ao fim do campo do adversário e coloca-la no chão (o que eles chamavam de try). O outro time sem a posse da bola tinha que impedir isso e tentar dar o tackle (derrubar o adversário para tentar tomar a posse da bola). Claro que tinha várias regras para fazer isso e outras formações fixas que foram aparecendo durante o treinamento.

Apesar da chuva o clima era de descontração e todos riam e tinham aquele entusiasmo no rosto. No treino notou que tinham alguns jogadores que se destacavam. Entre eles um cara extremamente forte e alto, que tinha o apelido de “Tropeço”. Um magrelo que corria mais que uma bala, que chamavam de “Pretinha” e o capitão do time que notoriamente chamavam de “Capita”.

Ao final do treino todos estavam descontraídos na rodinha e conversando entre si. O cão chegou perto de Inocêncio ficou de frente para ele e antes que ele pudesse falar alguma coisa o empurrou. Inocêncio não notou que Pretinha tinha agachado atrás dele e caiu na velha brincadeira da carniça. Com o empurrão desequilibrou tropeçando em pretinha e se estatelou no chão aos risos de todos ali. O capita o ajudou a levantar ainda sobre risos e o cão falou.

_ E ai novato está gostando da brincadeira?

Inocêncio lembrou da frase do flyer e respondeu.

_ Não podia espera menos, afinal… o homem é lobo do homem.

Momentaneamente todos pararam e viraram para ele. Inocêncio podia jurar que viu o rosto de alguns mudarem de expressão e mostrarem presas nos lugares dos dentes. Pareciam cães de rua quando ameaçados. O clima fechou.

O cão avançou para cima dele como um Leão e o pegou pela gola. Afastando ele dos demais.

_ Quem te mandou!?

Arturo chegou logo depois próximo a eles. Pedindo calma ao Cão.

Inocêncio se assustou mas respondeu e explicou que tinha recebido o flyer e atrás tinha a mensagem.

O cão insistiu. Inocêncio jurou que podia ver garras ao invés dos dedos dele.

_ Quem te mandou!?

_ Não sei ele era um cara grande. Tinha um colar de contas.

O cão o soltou. Voltou para perto do grupo vociferando para a chuva que Frank era um babaca.

Arturo o fitou desconfiado.

Gritou pelo Capita.

Ele foi até eles e entregou um colar de madeira a Arturo.

_ Toma moleque. Amanhâ a noite. Dezenove Horas. Não se esqueça de vir com isso no pescoço. É o seu passe para o treino do time titular. Agora é melhor você ir. Vamos fazer uma mini reunião aqui.

Inocêncio agradeceu e saiu. Estava assustado. Não podia deixar de desacreditar o que tinha visto. Mas era uma puta de uma sensação intrigante, ou podia ser só seu estresse pós-traumático, ou melhor duplo estresse pós-traumático. Guardou o amuleto de madeira e voltou para casa.

Teve o mesmo pesadelo da noite anterior. Exatamente igual. Dormiu pouco e mal.

O dia foi tedioso.

Assistiu vários jogos de rugby durante a manhâ e rumou para a UEPB a noite. Colocou o amuleto na mochila e desceu na UEPB deserta. Sentiu medo. Não via um pé de pessoa.

Deserto. Deserto. Deserto.

Silêncio. Silêncio. Silêncio.

Saco. Saco. Saco.

Desceu em direção ao campo, mas notou que o campo não estava lá. Com a chuva tudo parecia diferente e ele rodou uns vinte minutos procurando o lugar. Não achou. Ficou puto com a porra da chuva e já estava indo embora. Procurou o celular na mochila para ligar para um mototáxi e encontrou o medalhão de madeira ao revirar os pertences. Tirou da mochila e só de pegar no amuleto conseguiu escutar uivos aos longe. Pareciam cachorros chorando pela chuva.

Seguiu o som.

Era como se por mágica ele encontrasse o campo.

Estava diferente. Tinha alguns postes acesos. Mas a iluminação não era das melhores. Viu tambores de lixo grandes com fogo dentro em vários pontos. Muitos carros e várias pessoas em diferentes pontos. Devia ter umas 60 pessoas ali. Parecia uma calourada. Tocava sons diferentes em diferentes rodinhas.

Natiruts. Música mexicana. Techno. Jazz

No meio de campo viu que os caras do time estavam em pé e tinha alguém sentado, foi se aproximando. Eles estava quase chegando ao centro do campo onde estava a aglomeração do time quando uma criatura gigantesca em forma de lobo saiu do centro do círculo caminhando em sua direção.

Inocêncio entrou em pavor.

Virou e correu como se tivesse fugindo do inferno no dia do juízo final.

Seu coração estava acelerado. Sua respiração pesada. A adrenalina fazia todos os seus músculos doerem. Olhou para trás e viu a figura negra monstruosa, que agora o perseguia em quatro patas. Em menos de dez segundos foi alcançado e em sua mente sentiu que iria morrer.

A criatura passou por ele. Inocêncio estancou.

O lobo tinha o pelo negro. A musculatura animalesca saltava através das brechas da pelagem. Caia baba do meio dos dentes que eram afiadíssimos e saltavam para fora da bocarra. O monstro parou na frente de Inocêncio e ergueu-se em duas patas.

Inocêncio só então se deu conta do quão surreal era a situação e de como enfim ele ia encontrar seu destino. Estava em frente ao que muitos chamariam de lobisomem, licantropo, lupino. A própria encarnação do mal.

O lobo negro ergueu o braço e as garras saltavam de seus dedos. Inocêncio caiu de joelhos fitando a criatura. Podia sentir a chuva. O vento. Ouvia os uivos atrás dele. O céu não aparecia a sua frente. Não existia luar no céu. Só a criatura. Só o horror. Só o terror.

O lobo desceu a garra em direção a Inocêncio.

Ele fechou os olhos.

Não sentiu dor.

 

Por Jefferson Lopes

o canibal da borborema ato v

Link para o ato I

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2 comentários em “O Canibal da Borborema Ato V – O Cão Chupando Manga

    Cavalquieri disse:
    21/03/2016 às 09:31

    Rapazzzzz….E a historinha que tu conta voltou com tudo hein…Parabéns! Continue essa bagaça que ta ficando bom…Agora com Lobisomens então ai foi que ficou primeira.

    Aryzão disse:
    21/03/2016 às 09:34

    Bicho agora eu já saquei…vai ser uma anjo,um vampiro e um lobisomen e no final eles quebram pau…continuarei para ver o tirinete… Rsrs!

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