O Canibal da Borborema – Ato VI _ Por que Sangue Tem Gosto de Ferro?

 

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00:13 horas.

Efferson despertou com uma música tocando muito distante. Escutava a canção e a melodia na voz de uma mulher. As memórias dele dispararam mesmo antes que ele pudesse abrir os olhos.

Era um fado.

Lembrava-se muito bem do ritmo e da melodia pois sua falecida mãe sempre ouvia e ele escutou muito tempo depois que sua genitora havia partido.

O som que tocava ao longe era triste, mas continha uma energia quase viva.

Abriu os olhos e viu uma mulher com um vestido vermelho esvoaçante dançando em um bailado frenético a luz do luar. O vento que entrava pela janela aberta fazia as vestes dela reluzirem e dançarem numa sinergia impar com o som. Ele lembrou da música. Penumbra de Ana Moura, era um dos fados que ele mais havia escutado em alguns anos de sua vida.

O bailado continuava:

“Uma noite em claro estou, eu não sei rezar

Pensamento inútil vou tentar-me anular

Fiquei triste, triste sou, eu não sei rezar

Vem que a alma se afunda

Nesta imensa penumbra

Que a noite me está morrendo

Que a noite me está morrendo…”

 

Efferson continuava hipnotizado pela dança da misteriosa mulher quando ouviu uma voz vinda atrás dele.

_ Você já dançou com um demônio a luz do luar?

A voz disparou todos os sentidos de Efferson e por um momento o mundo todo desabou sobre sua cabeça. Instintivamente levou a mão direita ao peito. Percebeu que estava com a mão acorrentada a uma placa de ferro no chão. Olhou e levou a outra mão livre ao peito, ainda estava com o buraco da lâmina que o tinha transpassado.

Levantou o olhar e viu o terno escuro. Cabelos castanhos. Finos e bem penteados. Barba feita. Os malditos sapatos brilhando. As citações fora de tom.

Caio.

Efferson tentou ficar de pé, notou que a corrente o restringia, também tinha um grilhão no tornozelo esquerdo.

_ Seu maldito! Você tentou me matar. _ O jornalista gritou.

Caio havia sentado na mesinha, a katana ensanguentada ainda estava apoiada no chão. Ele olhava para a mulher e voltou a atenção pra Efferson.

_ Eu não tentei, você está de fato e verdadeiramente morto.

O choque tomou conta do jornalista, ele já tinha visto muitas loucuras e sandices na sua vida, mas realmente sentia que tinha sofrido um ataque mortal no peito, tinha sentido a agonia da morte, mas por outro lado estava totalmente consciente e falando com seu algoz.

_ Você é muito pirado mesmo. Como posso estar morto se estou falando com você. A não ser que isso aqui seja o inferno e somos todos defuntos. _ Enquanto falava Efferson começou a sentir um gosto estranho na boca.

_ Acertou o segundo raciocínio.

Caio arregaçou a manga e seu pulso estava com vestígios de sangue. Apontou para própria boca e incentivou o jornalista a olhar a sua.

Efferson notou que tinha sangue por toda a extensão do seu queixo. Ficou confuso por um momento.

Caio falou.

_ É exatamente isso que você está imaginando. É exatamente como nos filmes só que diferente.

A ficha não caia para o jornalista.

Desde que tinha retomado a consciência Efferson sentia uma dor extremamente incomoda no estomago e aos poucos essa dor vinha aumentando.

A música parou.

A mulher que tinha os cabelos curtos quase chanel veio caminhando com pulinhos e com os braços bem espaçados do corpo até Caio, subiu na mesa e o abraçou pelas costas.

Não importava a dor nem o que Caio havia sugerido, a mulher era estonteantemente hipnotizadora para Efferson. Não conseguia parar de olhar para ela.

_ Oh que descuido o meu, não apresentei vocês. Efferson essa aqui é minha irmã, Esther.

A mulher saltou da mesa e caminhou até o jornalista.

Se ajoelhou a sua frente.

Lentamente desceu a cabeça até o peito dele e com a língua lambeu o plexo solar e foi subindo pela garganta de Efferson até sua boca.

Deus mais duas lambidas e saiu de perto dele correndo até a vitrola que ficava num canto da sala.

Caio se aproximou dele e agachou.

_ Desculpe meu caro, mas eu tinha uma dívida com o homem que lhe mandou até aqui. Não sei que tipo de jogo ele está jogando nas noites atuais, apenas sei que você agora faz parte dele, isso é se você sobreviver a grande morte e a pequena morte.

Efferson fez um rosto de indagação. Queria protestar. Gritar. Mas a dor tinha aumentado tanto que ele não conseguia falar.

Caio viu que ele estava confuso e explicou.

_ Como eu falei antes é exatamente como nos filmes. Eu te roubei o sopro de vida e devolvi para você um pouco da minha própria imortalidade. Sim eu sou um vampiro e dei sangue pra ressuscitar você do seu estado de morte. Em termos gerais você está em transição para se tornar o que eu e Esther somos.

A vampira tinha colocado mais uma vez Ana Moura na vitrola e corrido para janela para dançar.

A dor estava começando a ficar insuportável para Efferson, e ele mal conseguia se concentrar na voz de Caio.

_ Deixe me esclarecer criança. Para que você passe pelo processo de transformação você tem que passar por “La Grande Mort”. Durante sete dias nas horas de sol você dormirá. Nas horas de lua você sofrerá. Não mentirei para você, a dor que você sente agora é só o começo e muitos não resistem. Por fim na última noite desse tempo as últimas sete horas nós chamamos de “La Petit Mort” e é quando você recebe a benção das trevas. _ O vampiro mudou a entonação da voz e olho no fundo dos olhos dele. _ O presente da mãe noite é diferente para todos nós o que faz com que nenhum vampiro na face desta terra seja igual a outro. Somos criaturas únicas.

Efferson começava a quase perder a consciência de tanta dor.

_ Não desmaie ainda criança. Deixe me dizer você ainda pode estar um pouco descrente e cheio de dúvidas sobre seu atual estado, mas me responda…

_ Saiaaaa! Você é louco! Eu não sou um vampiro! Isso não é um filme porra! Eu não sou um vampiro! _ Efferson explodiu com as forças que ainda lhe restavam.

_ Se você não é um vampiro me responda, porque você não está respirando?

_ Mas eu estou…

Repentinamente Efferson se deu conta que não respirava, pelo contrário o fato de tentar puxar o ar lhe pareceu incomodo e não natural.

Pensou que isso era impossível, não podia estar morto e virando um monstro de maneira tão mórbida como essa. Ele nem sequer sabia que existia algum tipo de coisa de outro mundo. Era doentio.

_ Porque eu? Me diga porque você está fazendo isso comigo. _ Efferson falou sem forças, sentia o corpo fraco estava desvanecendo.

_ Apenas durma criança as respostas virão com o tempo.

O jornalista foi desvanecendo, mas antes de perder a consciência conseguiu distinguir o gosto que sentia na boca. Era gosto de ferro.

Dormiu embalado pelos fados de Ana Moura ainda ao fundo, enquanto Esther dançava girando sem parar:

“Rumo ao sul, sem amor, devagar

O meu sonho faz-se ao mar

Seu amor rumo ao sul

O meu céu perdeu o azul

Volto as costas às luzes brilhantes da cidade mãe

Sou sombra impiedosa do apego a quem já não se tem

Sei que ao fim desta estrada há uma casa que suponho ter

E a vontade indomável que teima em me querer perder…”

 

Segunda Noite

Efferson acordou com as entranhas ardendo.

Era como se tivessem cem agulhas de tricô furando sua barriga por dentro, como um tigre arranhando as paredes querendo sair.

Tudo doía.

Olhou ao redor. O silêncio era quebrado por gotas de neblina na janela.

Gritou.

Ninguém veio.

A única fonte de luz eram seis velas em um castiçal.

Efferson urrou de dor. Chamou por Caio, por Esther. Aos poucos começou a se dar conta de que estava só, e de que ninguém ouvia suas súplicas.

O desespero e a dor se apoderaram dele.

Pensou na sua família. Em Inocêncio. Em Flávia. Nas outras pessoas. Será que ia reencontrá-las um dia. Sua cabeça se enchia de pensamentos que eram esvaziados pela dor.

Que dor insuportável. Gritou, mas o simples fato de gritar o dilacerava por dentro.

E a noite seguiu em agonia. Uma agonia ritmada pela neblina que batia na janela e servia como o pontilhado da sua trajetória rumo à loucura.

Se deu conta de que isso podia ser apenas mais um passo da sua depressão. Era isso seu cachorro preto tinha dado o passo final para arrancar o que restava da sua sanidade. Só podia ser isso.

O dia amanheceu ao longe e o sono o abraçou por completo.

 

Terceira Noite

Efferson acordou. Mais uma vez a dor. Sua companheira inseparável.

Esther estava sentada em uma cadeira a sua frente.

Tinha uma taça de vinho na mão. Vinho? Ou sangue? Efferson não sabia ao certo. A dor em suas entranhas não o deixava sequer raciocinar direito. Só queria que a dor parasse.

_ Por favor! Esther não é?! Eu não me importo! Apenas faça com que a dor pare! Não consigo suportar isso! Por favor me mate de uma vez!

As palavras saíram da boca de Efferson sem que ele se desce conta do que ele mesmo tinha acabado de dizer. Tinha pedido pela morte sem sequer pestanejar. Isso então era o que chamavam de desespero.

Esther bebeu da taça em um único gole. Jogou-a pelo tapete. O som seco do cristal no algodão almofadado era abafado pelo som da garoa na janela.

Ela se jogou ao chão e rolou pelo assoalho como uma gata no cio. O vestido que ela usava em V era de uma devassidão extrema. Rolou até chegar na vitrola. E mais uma vez colocou para tocar fados.

Efferson se enfureceu.

_ Sua cadela! Eu estou sofrendo aqui e você quer embalar minha agonia com música!

Sua voz silenciou com os dedos de Esther em sua boca. Ela havia se deslocado muito rápido de um ponto ao outro da sala. Como um borrão ela percorreu no mínimo dez metros em um milésimo de segundo. Era impossível.

Efferson sentiu um calafrio percorrer sua espinha.

Ela tirou os dedos da boca dele, e colocou as mãos em volta de seu rosto.

Ele sentiu as unhas dela arranhando sua face.

Viu o filete de sangue que corria pelo canto direito dos lábios da mulher. Podia ver as presas ainda manchadas do liquido rubro por entre sua boca semiaberta. A pele dela era pálida em excesso, mas isso não desarmonizava nem um pouco o seu rosto. Os olhos tinham um vivido de causar furor em qualquer homem, ao mesmo tempo que o toque dela era frio como a noite.

Ela olhou no fundo dos olhos dele. Seus rostos quase colados. Ele sentia que ela podia ver por dentro dele. Como se ele fosse uma prostituta despida diante de um cafetão prestes a copular.

De fato, ele sentiu que ela estava lendo a sua alma. Não podia explicar. Não era algo que a condição humana podia descrever. Apenas sentia que a mulher a sua frente o decifrava com o olhar de uma maneira que ele mesmo não poderia sequer ousar.

Perdeu a noção do tempo.

Apenas despertou do transe quando viu as lágrimas de sangue escorrerem dos olhos de Esther. Todo o sofrimento que seu cachorro preto o havia causado. Toda macula que a vida o havia feito passar.

Ele soube que ela sabia, que de alguma forma sentia.

E que estava com pena por ele.

Esther afagou o seu rosto.

Se levantou.

O disco na vitrola já tinha saído do ponto e não tocava mais.

Estava amanhecendo.

Ela caminhou a passos lentos e antes de deixar a sala. Apagou a quinta vela do castiçal com os dedos.

 

Quarta Noite

Efferson sentia os músculos dos dedos retesados. As costas também. Na verdade, a maioria dos seus músculos doíam alguns com mais intensidade, outros com menos. Mas a única dor que persistia como um rato roendo um grande tufo de queijo eram suas entranhas.

Estava fraco.

O quarto estava vazio.

Apenas o som da chuva.

E quatro velas no castiçal.

Sentia algo o inflamar por dentro. Estava muito furioso com algo que não era inerente a sua atual situação. Tentou conviver com a dor e refletir o que o perturbava tanto.

Era ela.

A pena que Esther sentiu da vida dele o inquietava como um pássaro numa gaiola. A vampira não tinha falado uma palavra sequer, mas tinha sentido pena dele. Tinha chorado sangue por ele. Porquê?!

Não aceitava isso. Seu sangue ferveu. Ele urrou na noite e xingou a mulher. Não queria ser digno de pena! Lutou a vida inteira contra isso. Combateu o bom combate e se sentia vitorioso apesar de tudo. E aquela maldita demônio tinha tirado isso dele em um olhar.

Urrou e sua fúria cortou a noite em impropérios até a quarta vela apagar e o dia nascer.

 

Quinta Noite

Efferson abriu os olhos e viu Caio.

O maldito vampiro engomadinho estava lendo um livro recostado na mesa de escritório, a estátua com a katana atrás dele próximo a cadeira. A cena o lembrou que a criatura com um ar tão formal havia retirado o seu status quo.

_ Boa noite Criança. Ontem você teve uma noite bem agitada não?

_ Vai tomar no seu cú seu merda! Você acabou com a minha vida seu merda! Seu merdinha dum caralho!

Efferson tinha arrumado um jeito de combater a dor.

A raiva fazia a dor ser suportável em parte, apesar de mal conseguir se mexer, ainda continuava com um pouco de ímpeto. E o único desejo dele nesse momento era de bater nesses dois irmãos até não restar mais forças.

_ Você está indo por um caminho ao qual eu não previ. Pensei que sua passagem pudesse ser bem mais dócil.

O vampiro fechou o livro.

_ Ao invés de me xingar você podia fazer perguntas. Posso responder algumas.

Efferson um encarou com uma fúria inquietante.

_ Porque não sinto fome? Ou sede?

_ Você está em transição seu corpo está mudando para receber “la petit mort”, até lá não sentirá fome nem sede. Depois disso apenas um alimento o saciará.

_ Você passou por isso? Por essa transição? Quem o transformou?

_ Talvez um dia eu lhe diga quem me transformou. Por enquanto você só precisa saber que todos nós passamos por isso. Sem restrição.

O vampiro foi até o castiçal e pegou ele nas mãos. Arrastou uma cadeira até próximo do jornalista e sentou colocando o candelabro entre os dois.

_ Mais alguma pergunta?

_ Você e ela são irmãos. Irmãos de verdade?

_ Sim. Tivemos uma mãe assim como você. Um pai ausente. E toda uma família.

_ Então como vocês dois viraram vampiros? _ Efferson notou que aos poucos ele já concebia a condição deles como algo aceitável e até vital do ponto de vista de sua realidade.

_ Estória muito longa para uma noite. Mas eu me transformei primeiro e a necessidade fez com que eu tivesse de trazer Esther para as trevas.

Efferson viu que o vampiro falava com um tom de melancolia na voz. Quase pesar.

_ E qual a dela com os fados?

_ Bem, Esther era uma cantora de Fados performática. Muito talentosa de fato. As trevas tiraram isso dela. A mãe noite dá, mas também tira. Que isso fique de lição para você.

_ Ela não pode mais cantar?

_ Ela ficou muda. Eu tive que acelerar o processo de transição dela se não ela não aguentaria, e isso teve um preço. Infelizmente. Não que ela não se faça por entender com o olhar. Você já deve ter percebido isso.

Efferson compreendeu.

_ Acelerar? Como assim acelerar?

_ Alguns de nós estão muito fracos para passar pela transição então arriscamos algo que chamamos de “Sussurro”. Apenas poucos de nós conseguimos passar por ele. E sempre tem um preço maior do que o que já nos é cobrado de maneira habitual.

_ Eu quero! Se essa for uma forma de essa dor parar é tudo que quero. O que tenho de fazer? _ Efferson falava como se tivesse surgido uma fagulha de esperança em um turbilhão de trevas.

Notou o olhar zombeteiro e cheio de malicia de Caio.

_ Ora minha cara criança. Você não precisa fazer nada. _ O vampiro pegou o castiçal de três velas com as mãos e o ergueu em frente ao rosto de Efferson. _ Apenas se prepare para… _ apagou a vela da esquerda e da direita com um sopro. _ Falar com Deus.

E assoprou a vela do meio deixando o quarto no breu…

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Sussurro

Efferson sentiu o cheiro de relva e nos pés a umidade da grama, folhas viscosas, raízes. Pensou por um momento como conseguia sentir cheiro se respirar não era uma necessidade. Notou que delimitava cheiros com o instinto de uma fera selvagem.

Isso o perturbou.

Tudo o perturbava.

Depois que Caio havia assoprado a última vela e a fumaça atingiu sua face se viu como que transportado para um sonho onde se afogava.

Acordou nessa floresta e não tinha a noção se ainda dormia ou se estava em um local real.

Estava tudo escuro. Não enxergava nada, mas não sentia o grilhão em seu pé nem em seu braço.

Muito ao longe ouvia um latido.

Começou a se mover, o sentimento de liberdade e cegueira momentânea quase o tinham feito esquecer que de maneira maravilhosa a dor em seu estomago havia cessado.

Ouviu um silvo breve.

E ao longe uma lua estonteante nasceu vigorosamente ao fundo. Ela era tão grande e estava tão perto que ele quase podia toca-la. A luz azulada que emanava dela iluminou toda a floresta que ele estava. Olhando ao seu redor o jornalista notou que todas ou quase todas as arvores tinham raízes retorcidas brotando do chão, e galhos secos ou murchos.

Lembrava a vegetação de um pântano morto de filmes de terror.

Viu que a sua frente tinha uma grande cadeira de ossos retorcidos. Conseguia definir claramente as formas pontudas e marfinizadas de ossos de animais. Animais?

Aproximou-se.

Ao passo que andava sentiu a temperatura esfriar como se estivesse nu no alasca. A sensação térmica simplesmente foi para quase -10 graus.

Percebeu que a cadeira mas parecia um trono e uma silhueta começava a tomar forma sentada nela.

Se aproximou com cuidado, andando vagarosamente. A cada passo que dava a silhueta ganhava formava. Parecia ser uma mulher. Ela não tinha olhos. No lugar deles parecia que sua testa tinha sido borrada e alongada para trás revelando dois chifres escuros e retorcidos. Usava um vestido vermelho. Descendo pelo torso Efferson quase caiu para trás com a visão, a mulher tinha vários braços descendo pelas pernas como uma estátua da deusa hindu durga, só que os braços não pareciam pertencer ao biótipo dela era como se fossem colocados a força na mulher e ainda assim formavam uma similaridade de ângulo com as pernas dela parecendo uma tarântula humanoide.

Efferson visualizou correntes que contornavam todo o corpo da mulher. Pareciam pulsar ao passo que ele se aproximava. Queria parar e chegou várias vezes a esfregar os olhos, mas a visão grotesca a sua frente apenas o atraia como uma mariposa sendo atraída para a luz.

Chegou a poucos metros e antes que pudesse falar a mulher o indagou.

_ Porque me julgas?

Ao falar a boca dela soltou uma enorme massa nebulosa de sangue da qual sobressaiam glóbulos negros, apêndices curtos e retorcidos que se espalharam como fogo por todo o chão, empossando o trono e criando halos por todo o lugar.

Efferson pensou em abrir a boca para falar, mas quando tentou separar os lábios notou que seu maxilar havia caído. Tentou segurar com as mãos mas notou que não as tinha mais. Apenas dois tocos no lugar delas. Caiu de joelhos e sentiu o coração pulsar forte. Olhou para baixo e viu que sua caixa torácica havia se aberto e o coração pulsava para fora pendurado de forma irregular.

Do sangue que escorria do seu coração pulsando viu uma frase se formar no chão:

“Veja o mundo num grão de areia,

veja o céu em um campo florido,

guarde o infinito na palma da mão,

e a eternidade em uma hora de vida!”

O desespero o abateu. Fechou os olhos. Voltou a abri-los e tudo havia sumido. Olhou para a mulher e a boca dela estava aberta em um sorriso com milhares de dentes pontiagudos como um tubarão.

_ Quem é você? _ perguntou o jornalista.

_ Eu sou Deus.

Efferson duvidou de todas as crenças que tinha tido em vida e de como aquilo quebrava todos os dogmas da igreja que havia aprendido na sua passagem como cristão.

_ Você quer dizer o Deus? _ Voltou a questionar.

A mulher fechou o sorriso e falou novamente, toda vez que ela falava o sangue pútrido escorria em torrentes e se espalhava pelo local aumentando a poça ao redor do trono.

_ Já disse para não me julgar. Eu sou o Deus dentro de você no seu estado atual. Sou a mãe noite. Sou o despertar da sua fera e o derramar da sua fome. Sou a letargia dos séculos por vir e a doença carcomida de toda sua luxúria. Sou a sua miséria absoluta congelada nos recantos da sua tristeza…

O jornalista sentiu um impacto profundo no meio dos olhos. Não conseguia sequer mover um dedo.

Viu aranhas formadas da poça de sangue em tons carmesins avançarem sobre ele e lentamente devorarem o seu cérebro. Fechou os olhos e os abriu novamente, mas as aranhas ainda continuavam o devorando. Tentou pedir a mulher que parasse, mas as aranhas tinham devorado sua língua.

Fechou os olhos em agonia e rogou para que aquilo terminasse.

A Mulher falou e ele voltou a seu estado normal como se não tivesse sido devorado.

_ Você pode se perder aqui sabia. Eu sou Deus e para mim o tempo é um joguete. Uma hora aqui dentro pode ser o tempo de seu corpo apodrecer lá fora.

_ E onde eu estou?

_ Você está dentro de você mesmo. E para sair daqui você precisa me libertar.

Efferson escutou latidos mais próximos.

O sangue que jorrava da boca da mulher o deixava ainda mais intranquilo, mas ao mesmo tempo passou a refletir. Se ela era Deus porque estaria acorrentada e porque precisava dele?

_ Mas você é Deus, porque porra precisa de mim?

Sentiu a coluna girar e de repente sua cabeça estava nas costas e as pernas no lugar dos braços. A dor foi de como sentir o mundo revirar. Logo que a mulher falou ele voltou ao estado normal.

_ Não me questione. Você tem de me libertar. Você terá três chances se falhar eu vou devorar você. Vou comer sua essência e não restará nada da sua carcaça infame para os corvos da sua alma.

Efferson não achava muito prudente libertá-la, mas não tinha opções.

_ O que acontece se eu conseguir libertá-la?

_ Juntos sairemos daqui e reinaremos no mundo da noite. Eu lhe darei o meu poder.

O sangue que saiu da boca da mulher partiu as pernas de Efferson ao meio como se fosse um rio de lava fumegante e caído no chão arrefecido de dor e sofrimento viu o sangue formar mais uma frase:

“Mostro a todos vós o mundo pleno de vida, onde toda partícula de pó exala o alento de sua agonia. ”

Efferson esperou e com uma ordem da mulher tudo voltou ao normal.

Ouviu mais um latido e dessa vez sentiu a familiaridade.

De repente tudo fazia sentido para ele.

A Mulher com sua bocarra feroz ria com desdém dele e falava em sussurros liberte-me.

O jornalista caiu em si. E respondeu.

_ Não.

_ O que? Como ousas reles criatura não atender minha ordem. O sofrimento que te causei não foi o suficiente para estares a me contestar?

A boca da Mulher se abriu ferozmente e a bocarra de dentes deixou sair uma língua bifurcada aterradora.

_ Sempre fui analítico e fechado. E se eu estou dentro de mim mesmo você não pode ser o meu Deus. Eu convivi tempo demais comigo mesmo e sei quais são meus próprios demônios e se existe um Deus aqui ele não seria uma criatura abissal e nojenta que nem você.

A mulher foi se retorcendo no trono, os vários braços tateavam o marfim e se feriam no processo. Ao mesmo tempo que tentavam romper as correntes.

Soltou um grito aterrorizante.

_ Vou devorar você seu verme!!!

_ Só existe um Deus aqui e não é você.

Repentinamente uma pata gigantesca desceu esmagando a Mulher e rompendo o trono em uma profusão de vazio. O som foi de uma barata sendo esmagada por um sapato.

O jornalista olhou para cima e viu seu cachorro preto. Era gigante. Parecia um labrador mas seu rosto era mais alongado e tinha uma expressão mais feroz.

Ergueu a mão e o cachorro se abaixou recostando a cabeça que era duas vezes do tamanho de Efferson próximo a ele, recebendo seu afago como um bom garoto. O seu cachorro preto latiu e o jornalista sabia que tinha passado pelo sussurro e por mais poético que aquilo parecesse sua condenação só havia começado.

O cachorro se desmanchou no ar e as partículas negras se aninharam no pulso de Efferson fazendo uma tatuagem diminuta com a forma do seu animal.

Fechou os olhos e despertou no quarto.

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00:00 horas.

Estava de joelhos.

O quarto estava muito iluminado com lâmpadas que até então nunca estiveram lá. Assim com toda a tapeçaria vermelha que havia sido trocada. Havia taças de…sangue na mesa perto da katana. Efferson percebeu que todos seus sentidos estavam ampliados. Podia notar até mesmo a temperatura do sangue na taça. Ainda estava quente.

Na janela com um vestido branco justíssimo Esther olhava para ele. Carregava um leque. A garoa na janela nas costas dela se liquefazia no vidro.

E a sua frente estava Caio.

Ao invés do traje normal engomadinho, vestia uma armadura de samurai completa vermelha. Estava com o capacete na mão direita e uma taça na outra.

_ Enfim você despertou e pela sua expressão com certeza seu “Sussurro” foi bem atípico. A maioria de nós volta com um olhar letárgico. Mas você até parece que nem morreu.

As palavras de Caio soaram como o estopim para Efferson. Seu punho fechou.

Caio bebeu da taça a arremessando no chão e colocou o capacete.

Ele sabia.

Efferson só queria socar o desgraçado. Não importava o que aconteceria depois. Pensou em como agir. Correria até ele e o socaria com toda força que pudesse com um direto de direita.

Antes que pudesse sequer processar o pensamento seu corpo reagiu como um reator de uma bomba. Os músculos enrijeceram e dilataram. O corpo arrancou numa velocidade apavorante. Sentia o tapete nos seus pés ficar para trás se acumulando como uma onda. Cortou o espaço entre ele e Caio como um raio e o braço se alinhou com o seu corpo em um movimento perfeito milésimos antes de explodir com o ribombar de um trovão na máscara da armadura de Caio a explodindo em pedaços e atingindo o rosto do amaldiçoado, que Efferson pôde sentir era duro como uma placa de titânio.

Seu punho quebrou, mas mesmo assim o impacto de massas opostas fez com que ele fosse arremessado para trás com uma violência sobrenatural batendo contra a parede do outro lado do quarto. Caio foi afastado alguns passos, embora se manteve de pé. O rosto estava quebrado. Pingava sangue do nariz e a boca estava desfigurada. O cabelo desarrumou um pequeno fio na frente.

Efferson se ergueu. O sorriso na boca lembrava uma criança feliz.Estava admirado com a própria atuação e com a força repentina.

_ Desde a primeira vez que eu te vi que queria dar um soco nessa sua cara perfeitinha. Assim você me parece melhor. Agora tá parecendo um homem.

Caio passou a mão no cabelo o deixando impecável.

De maneira sobrenatural o rosto se reconfigurou regenerando no melhor estilo Wolverine. Ele sorriu para Efferson que alisava o punho quebrado.

_ Essa é minha benção das trevas Efferson. Eu possuo o dom de criar armaduras com meu sangue. Você bate muito forte. Rompeu duas delas com um único soco, tenho de admitir. Mas não adianta. Eu sou seu criador e se esse embate perdurar posso não ser tão complacente com uma cria.

Caio deu dois passos na direção dele e a máscara da armadura se refez na sua mão a partir do próprio sangue dele.

Efferson levantou os punhos se pondo em postura de combate como o boxeador que era.

_ Pare já com isso. Isso é perda de tempo minha e sua. Estou aqui para guia-lo e não destruí-lo.

_ Vai para puta que pariu seu merda! Você já acabou com minha vida. E já que estou morto mesmo. Vou te encher de porrada.

O mesmo pensamento. Se deslocar como um raio e socar o vampiro a sua frente com toda força, dessa vez com a mão esquerda. Foi só pensar e seu corpo o obedeceu como um impulso milagroso de velocidade, postura e sincronia. Já sentia a mão deslizando para atingir o rosto de Caio quando algo o parou.

Esther.

A vampira havia se deslocado quase na mesma velocidade que ele e segurou seu soco com uma naturalidade impassível a milímetros do rosto do irmão.

Toda a força dele tinha sido parada e se desfeito como pó.

Ela torceu a mão dele e o pôs de joelhos.

Ele mal conseguia olhar para ela. Que o encarava com aquele olhar perturbador. O ódio cresceu dentro de Efferson. De novo não. Sem sequer dizer uma palavra. Não ia sentir pena dele de novo. Não dessa vez.

Sentiu seu cachorro preto latir dentro dele.

Sentiu as presas crescerem. Como uma labareda seu punho direito se incendiou de uma substancia escura que se desenvolvia da tatuagem no seu pulso e envolveu todo seu braço direito.

Subiu com um ímpeto assustador e atingiu o queixo da vampira com um gancho que a fez quicar no teto e cair no chão com um baque surdo.

Em resposta Caio imediatamente tinha dado um chute circular que atingiu o abdômen de Efferson o arremessando contra a antiga vitrola a alguns metros de distância. Efferson sentiu a dor e o peso do golpe que era brutal, se dando conta que seu corpo absorvia pancadas que conseguiriam nocautear um Mike Tyson como se fossem apenas bons golpes. Apesar de sentir que esse chute tinha partido algumas costelas. E a vampira tinha esmagado os ossos da sua mão esquerda quando o parou.

Efferson fez uma pequena auto análise. Um punho quebrado, uma mão esmagada e algumas costelas partidas. Fim do primeiro round. Será que conseguiria aguentar o segundo?

Efferson se apoio na vitrola para ficar de pé. Acidentalmente a agulha desceu até o vinyl e já ia começar a tocar mais um fado quando ele deu um soco tão forte que demoliu a vitrola em vários pedaços. Até mesmo ele se surpreendeu com a própria força.

_ Sem fados por hoje. Hoje só quero ouvir o som dos seus gritos.

A vampira havia se erguido, um filete de sangue escorria do seu lábio.

Ela lambeu.

Os dois vampiros começaram a caminhar em direção a Efferson. Caio fez uma cara de desaprovação e tinha sacado a Katana. Andava coma postura de um samurai no campo de batalha. Esther tinha jogado o leque fora. Os olhos dela estavam ainda mais ameaçadores agora.

O cachorro preto de Efferson se materializou a partir do seu braço direito em uma profusão de sombras e se dividiu em sete ao redor dele latindo e rosnando ameaçadoramente para os inimigos a frente. Pareciam feitos de uma chama negra tremeluzente, assim como o próprio braço direito dele que ardia da mesma substancia completamente enegrecido. Por mais assustador que parecesse Efferson gostava daquilo e percebeu aos poucos que aquela devassidão sombria na qual ele, de maneira surreal, havia sido arremessado o satisfazia. Tinha perdido o controle do que era sua vida e o desafio da ameaça a sua frente o divertia de maneira perturbadora.

Estava com um sorriso demoníaco no rosto com presas protuberantes se destacando.

Notou que os irmãos haviam parado. Esther olhava diretamente para ele.

Embora ela não produzisse som algum, pode ver os lábios dela se mexerem e conseguiu lê-los facilmente.

E ela disse:

_ Vampiro.

Voltou a sentir o gosto de ferro na boca…

 

Por Jefferson Lopes (@jeffersonwayne)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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