O Canibal da Borborema – Ato VII – Anjo da Pequena Morte e da Cena de Codeína

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anjooo

03:00 horas.

Flávia Maxmiliano adentrava o beco escuro.

A garoa estava tão fraca que quase parecia um vento gélido.

Sua visão havia se acostumado com as trevas já fazia uma semana. Seu novo estado era uma dádiva e tanto, mas ela era totalmente novata no assunto de lidar com algo tão magnânimo como o que havia acontecido com o seu ser.

Depois do ocorrido no apartamento de Marcos, ou melhor, Uriel III, ela própria havia voltado para o seu. Apesar do embargo da polícia foi extremamente fácil entrar e sair do prédio sem ser notada. E foi no seu apartamento que havia tido um encontro com um indivíduo bastante diferente. Se chamava Frank e era uma massa compacta e enigmática. Foi ele que havia dito a ela para ir esta noite nesse beco se encontrar com quem supostamente podia dar respostas sobre toda sua mudança.

Caminhando entre as poças de lama. Via o chiado do fogo nos latões de lixo que os mendigos usavam para tentar abarcar o frio na noite chuvosa. Os próprios mendigos dormiam entre os latões tornando o beco ainda mais estreito.

Pensou alguns instantes em como a situação de Campina Grande parecia calamitosa. Em tão pouco tempo a metrópole tinha se tornado de maneira crua em uma lápide asquerosa e repleta de remendos sociais que geravam criminalidade e morte.

Chegou ao final do beco.

Tinha um letreiro em neon quebrado, com o nome Heylel, a letra y estava apagada e vez ou outra piscava. Uma escadaria de cimento cru seguia para baixo levando até uma portinhola de madeira.

Desceu.

Tinha letras prateadas inscritas na porta.

“Et habemus firmiorem propheticum sermonem cui bene facitis adtendentes quasi lucernae lucenti in caliginoso loco donec dies inlucescat et lucifer oriatur in cordibus vestris.”

Seus novos dons traduziram instantaneamente a frase:

“”E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações. ”

Lembrou de pronto da passagem de Pedro 1:19 que falava de lúcifer, do portador da luz.

Avançou e tentou bater, mas a porta abriu ao toque de sua mão. Essa era mais uma sensação diferente das demais, o seu tato era um dos sentidos que mais havia se ampliado com os seus novos dons. Podia sentir o material da madeira e todas as imperfeiçoes de sua extensão.

Entrou.

Tinha uma antesala sem nada. Totalmente vazia pintada de vermelho. E depois de um portal de madeira rubra uma sala mais ampla. Flávia foi entrando sentindo um cheiro de fumaça forte. Ao fundo escutava uma música. Já havia escutado antes. Hozier. Ela adorava ele, mas agora não lembrava do nome da música. Um sofá velho com o estofado rasgado decorava o ambiente e na mesinha a frente tinha um antigo tarot de Marselha (com apenas uma carta puxada), um Incenso de arruda e uma garrafa de dreher quase vazia.

Ao se aproximar viu uma figura loira no chão. Era uma mulher. Seus cabelos eram muito curtos com uma franja mesquinha. Dormia em posição fetal e babava como um bebê. Tinha um cigarro ainda aceso na mão que fumaçava sem parar.

Flávia não quis acordá-la. Notou que o ambiente se resumia a essa sala um pequeno quarto com a porta quebrada, um banheiro que pingava ao fundo e uma minúscula cozinha com apenas um fogão e um frigobar que estava aberto. Foi até lá para fechá-lo e viu restos de pizza no fogão e muita bebida no frigobar. Muita mesmo. Na verdade eram dezenas de garrafas de dreher, e no chão tinha mais algumas já vazias.

A música de Hozier vinha de um smartphone em cima do frigobar. Antes que ela matasse a curiosidade quase morreu de susto com a voz languida e mal humorada da mulher que se levantava do chão.

_ Anjo da Pequena Morte e da Cena de Codeína. Esse é o nome da música sua puta e não toca na porra do celular.

A mulher estava sentando no sofá. Esfregava a cabeça como se estivesse com dor.

_ Desculpe. _ falou Flávia se reaproximando.

_ Desculpa é o caralho. Senta a porra desse rabo aqui e vamos conversar. Não é para isso que você veio? Mas antes traz uma garrafa desse liquido dos deuses ai no frigobar.

Flávia achou engraçado.

Pegou a garrafa.

Colocou na mesinha e sentou no outro sofá de lado para onde a mulher estava.

_ Quem te mandou foi o puto do Frank não foi? Aquele manipulador de matéria asqueroso e suas artimanhas.

_ Eu não sabia que era um inconveniente vir mas…

_ Mas porra nenhuma! Que merda é você? Um aglomerado de carne podre com um toque celestial. Você passou pelo suspiro não foi?_ A Mulher tomou dois goles da garrafa de dreher.

Flávia assentiu. E já emendou.

_ Frank me disse algumas coisas e que você teria a maioria das outras respostas.

_ Já falei que o Frank é um puto de merda.

A mulher bebeu mais dois longos goles da garrafa.

_ Tá bom vamos agilizar as coisas. Tá vendo a carta na mesa.

Flávia notou que a carta do tarot estava virada na mesa. Era uma mulher em meio a ramos e alguns seres que ela não conseguia distinguir nos quatros cantos da carta que a cercavam.

_ Essa é a carta número XXI do tarot de marselha, se chama “o mundo” representa o reencontro do paraíso. _ A mulher cuspiu ao falar a última palavra_ Isso quer dizer que a pessoa conseguiu ou vai conseguir atingir os objetivos, o seu mundo está ou vai estar em suas mãos, também mostra que o consulente é protegido pelos poderes superiores. Como sua carta se encontra de cabeça para baixo, os significados invertem, tudo ao contrário do que eu falei acima. Pera não lembro se estava ou não de cabeça para baixo quando tirei. Que se foda!

tarott

Bebeu mais dois goles. O litro já estava na metade.

Flávia estava admirada com o show barato que a mulher a tinha dado. Tarot nos tempos modernos. Besteira. Tentou da maneira antiga.

_Quem é você?

_ Você é burra caralho. Não leu a placa e os dizeres na porta?_ Bebeu mais um gole e arrotou no fim.

Flávia achou que fosse mais um engodo. Mas com tudo que havia acontecido na sua vida recente não podia descartar nada. Sempre foi uma boa detetive por não descartar nada.

A Mulher estava acendendo mais um cigarro e apontou para um quadro torto na parede perto do banheiro. Flávia não tinha reparado nele antes. Se tratava de “A queda de Lúcifer”, ilustração de Gustave Doré para o livro O Paraíso Perdido de John Milton. Devia ter um metro de altura por quarenta de largura.

A ruiva não pôde deixar de abrir um sorriso.

_ Cairo, Nova York, Cidade do México, Paris, Veneza, Londres, Tóquio e olha onde estou? Na puta da Borborema. _ a mulher bebeu todo o resto da garrafa e jogou o recipiente na parede estilhaçando-o.

_ Mas…

_ Juro pelo puto do Deus que se você falar mas de novo eu vou arrancar sua alma e dar de comida a cada pseudo demônio que eu encontrar.

Tragava o cigarro como se aquele fosse o ar que ela respirava.

_ Desculpe é que sempre pensei no arquétipo masculino de Lúcifer e você é uma surpresa do ponto de vista católico. _ falou a meio anjo ainda atônita.

_ Você continua descrente por eu estar nesse fim de mundo e lendo tarot. No fundo você não acredita nem um pouco no que eu sou não é, no que acabei de dizer. Vou traduzir. O que a carta do mundo quis dizer é que o Coro Arcano vai caçar você como uma vadia que matou Abel, e não vão sossegar até mandar sua alma para o quinto dos infernos. Como se eu não tivesse fechado o lugar.

_ Desculpa, não entendi. Fechou o que?

_ O inferno sua puta. Tá surda. Nunca leu Sandman. É quase aquilo ali, mas eu joguei a chave fora e não dei a nenhum perpétuo.

_ Desculpe.

_ Caralho faz dois minutos que te conheço e não te suporto. Cê é chata para caralho!

A mulher levantou aos tropeções e foi até o frigobar pegou mais uma garrafa.

Voltou e sentou no sofá de maneira largada.

_ Você ainda não acredita né sua caralhuda de uma porra! Bebe. Abre e bebe.

Flávia hesitou por um instante, depois abriu a garrafa e bebeu do liquido.

_ Absinto?

_ Claro sua babaca ou você acha que o todo poderoso Lucifer, A Estrela da Manhâ, Estrela Dalva ia beber porra de Dreher: desce macio e reanima.

Soltou uma risada debochada.

_ Compro o dreher barato e transmuto para absinto. Um velho truque que mantém a barriga quente e o juízo distante.

Flávia estava completamente perdida pela figura a sua frente. Era difícil acreditar que ele fosse a figura que sempre perpassou os escritos e o senso comum cristão. Mas já tinha lido muito sobre vários significados de Lúcifer e as escrituras. Nada chegava nem perto da mulher a sua frente. Mas não podia descartar as coisas ao seu redor e o que ela tinha dito.

_ Vamos subir. Quero tomar um ar.

Lúcifer saiu aos tropeções e subiu a escada.

Lucifer

03:27 horas.

Voltaram ao beco.

Lucifer acendeu mais um cigarro.

_ Vamos subir mais.

Baixou uma velha escada de incêndio e subiu aos trancos e barrancos. Flávia o acompanhou.

Estavam na cobertura de um pequeno prédio no centro. Próximo aos bancos.

Lúcifer olhava para cima. A garoa estava geladíssima. Mas caia muito devagar.

_ Sabe o que acho engraçado. O conceito que as pessoas têm de Deus é muito controverso. Deixam ele, ou melhor guiam suas vidas por ele. Não se perguntam porque ele faz o que faz. Porque as castiga ou as salva. Se elas soubessem a verdade. A terrível verdade. _ Lúcifer falava como que pra si mesmo e sua voz tinha um tom sério.

_ Que verdade?

_ Deus é um pai ausente. Criou a humanidade e a abandonou a sua própria sorte de destinos e outras entidades avidas por poder e desígnios difusos. Ele não liga pra nada! _ a voz ganhou mais força e brandia em tom bem mais elevado sempre olhando para cima. _ Ele não gerencia nada! Largou a sua maior obra ao acaso e está pouco se lixando pra humanidade! Eu estou aqui por eras e vi toda a capacidade de suas crias! Eu me importei com cada ser humano na sua espiral de dor e sofrimento! E pra quem vai o crédito?! Pra você seu descarado! Jesus era quem estava certo quando perguntou porque você nos abandonou.

Flávia sentia cada palavra advinda daquele que consideravam o demônio mor na doutrina cristâ e não conseguia discernir mentira em nenhuma delas. Apenas revolta e rancor.

_ Devia ter trazido uma garrafa.

Acendeu mais um cigarro.

_ Porque você está aqui Lúcifer? Porque Campina Grande?

A estrela da manhã sorriu.

_ Vim parar aqui por acaso. A contragosto para ser sincero. Mas esse lugarzinho mequetrefe de um caralho é o local onde posso dormir sossegado sem ninguém me caçando, ou conjurando magias poderosíssimas pra me aprisionar. Sem anjos para achar que vão conseguir algo comigo e me transformar no novo líder deles ou alguma merda que sempre acontece. _ Deu uma tragada longa no cigarro. _ Mas na verdade eu gosto de observar as coisas de perto e essa cidade é onde as coisas estão acontecendo agora. Você é um exemplo.

_ Eu?

_ Sim sua puta mal criada. Você! Só existiram dois iguais a você em toda a história. Um durou apenas dez horas, o outro durou dez anos. Quanto tempo você vai durar?

Apagou o cigarro e já acendeu outro.

_ E tem também o Canibal, que é um dos motivos de eu estar aqui…Afinal ele quem criou o ritual para chamar minha atenção e me trazer a esse lugar. Me pergunto se ele sabe o meu atual estado.

_ Que estado?

Antes que Lúcifer respondesse um raio caiu iluminando a noite. A garoa se transformou em chuva.

luci a queda

No espaço da cobertura na frente deles uma luz em espiral escura apareceu do nada e Haniel, o selador, saiu de dentro dela, dos seus dois metros de altura, negro como a noite, olhava para eles com sua expressão fria.

_ Lúcifer? O que você faz aqui? Com essa aberração?

_ Há quanto tempo Haniel. Nem um abraço seu porra! Você já foi mais respeitoso.

_ Respeito a hierarquia angelical e você não faz mais parte dela. Pra ser sincero sua cabeça está a prêmio.

_ Antes de mais nada me responda. A política de vocês continua a mesma de décadas passadas? Três níveis de restrições sem um Princeps?

O negro o fitou por um momento e assentiu com a cabeça.

Flávia olhava para os dois totalmente paralisada. Ainda estava um pouco incrédula em relação a Lúcifer mas agora tinha tido a maior das confirmações. Teve vontade de se beliscar pra saber que não estava sonhando, mas com certeza aquilo não era um sonho. Era sua realidade.

Lúcifer guardou a carteira de cigarros no bolso do jeans rasgado.

_ Vocês nunca mudam. Qual as ordens para a meio anjo?

_ Extermínio pelo beijo de Icaro. Espero que você não se oponha? _ respondeu Haniel.

_ Cruel. Depois que fechei o inferno me restaram apenas sete dádivas das quais hoje só disponho das duas últimas. Não vou gastar com ela. Posso me despedir?

_ A vontade.

Lúcifer se aproximou de Flávia a levando para perto da beirada da cobertura e falou baixinho.

_ Não posso te ajudar sua caralhuda. Se você quer realmente ter alguma chance tente fugir e se esconder. Esse é um anjo de ébano, seria mais ou menos como uma policia celestial e está com restrições ao seu poder. Logo ele não pode voar e seu corpo não aguentará dano maciço. Você tem alguma arma?

Flávia estava assustada. Não queria lutar nem ser exterminada. Não conhecia nada do mundo ao qual tinha sido jogada, mas também não podia ficar passiva. Ela nunca foi isso em sua vida.

_ Tenho. Uma pistola que eu mantinha de reserva em casa. Estou com ela. _ As palavras titubearam na sua boca.

_ Não fará muito efeito se você não souber como usar. Lembra do meu truque com o dreher? Quando você for puxar o gatilho apenas mentalize que são relâmpagos ao invés de balas. Apenas isso.

_ Apenas isso?

_ Sim baby… É assim que as coisas são, uma merda.

_ E Agora?

_ E agora você dá um salto de fé…

Lúcifer a empurrou do prédio.

Flávia entrou em desespero. A queda devia ter no mínimo 20 metros. Sentia o seu corpo cortando o ar. A vertigem de estar caindo era desconcertante. Notou que seu corpo quase que instantaneamente se organizava para ter um certo equilíbrio, de maneira instintiva conseguiu cair de pé no solo. Sentiu o estalido nas articulações quando tocou o chão. Apesar de que de alguma forma magica não tinha sofrido o dano. Muito menos machucado as pernas. Estava de pé depois de cair vinte metros em queda livre. Seu corpo absorveu o impacto harmoniosamente até.

Começou a correr lembrando das palavras de Lúcifer.

Sabia por treinamento que a melhor maneira de despistar um perseguidor era dobrar esquinas e correr o máximo possível, além de fazer o inesperado.

Correu o mais rápido que pode e estava quase nas ruas do comércio quando viu a parede angelical cair a dez metros dela. O sobretudo que ele usava esvoaçou quando ele girou os calcanhares e olhou na direção dela.

_ Renda-se mulher! Você é uma aberração. O Uriel III cometeu um pecado e você precisa ser extinta para a expiação se completar.

_ Me foi dada uma segunda chance! Desde que me conheço por gente vocês são criaturas do bem. Porque estão fazendo isso? Quem é você para ser meu júri e meu carrasco?!

Ela gritou, as palavras ecoaram pela noite deserta. Na verdade, ela nem mesmo sabia o porquê de tudo isso. Nada parecia fazer sentido. Nada.

_ Sua pena foi dada no momento de sua criação. Sou apenas a ferramenta para o cumprimento da sentença.

Haniel juntou as mãos. Uma luz amarelada se formou entre suas palmas e em um flash de luz Flávia sentiu como se o tempo estivesse desacelerando. A chuva caia mais lenta e o mundo ganhou um tom de opacidade.

_ Isso se chama retenção. Eu selei as 20 quadras dessa área. É um selamento para evitar o comprometimento dos mortais e manter nossa influência longe do aspecto mundano.

_ Como assim?

_ Você não entenderia. Mas não acha que nos mantivemos ocultos todo esse tempo por mera sorte. Ajoelhe-se. Não admitirei mais nem um suspiro vindo de você. Já fui muito complacente.

O anjo de ébano começou a caminhar na direção de Flávia que sacou a pistola instintivamente. O dedo foi no gatilho em uma fração de segundos e dois tiros atingiram em cheio o peito de Haniel.

Imediatamente o anjo pareceu se concentrar e a mesma luz amarelada curou suas chagas. Os projeteis caíram no chão nas poças que a chuva mediana criava.

_ Boa pontaria. Minha vez.

O anjo juntou novamente as palmas e uma bola de energia amarela faiscante tomou forma entre elas. Ele a segurou com apenas a mão direita e a empurrou no ar. Assim que saiu do contato de seus dedos ganhou uma velocidade vertiginosa em direção a Flávia.

Novamente de maneira instintiva e em uma fração de segundos seu corpo reagiu. Pendeu para esquerda se arremessando para longe do alcance da energia que passou rasgando a noite e cortando a chuva. A meio anjo guardou a pistola no coldre da cintura e pensou em algum lugar para se esconder. Antes que pudesse se pôr a correr assustada com tamanha demonstração de poder do seu adversário mais duas bolas de energia rasgaram a noite em sua direção. Foi rápida o suficiente para se esquivar da primeira rolando para direita, mas a segunda a atingiu em cheio no plexo. A força da energia era imensa e deslocou Flávia por vinte metros pela extensão da calcada como uma onda que dá uma ressaca em um banhista. Sentiu os ossos fraturando. Bateu duas vezes de cabeça no chão arrancando o asfalto até se chocar violentamente contra a parede lateral do edifício palomo.

Estava zonza.

Sua visão turva.

A dor se fez presente.

Levantou com dificuldade, viu que estava ensanguentada. Sua boca estava quente.

Tossiu sangue.

Viu o anjo de ébano caminhando lentamente em sua direção.

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Ele falou.

_ Por isso vocês são uma aberração. Por isso o coro arcano decidiu por extinguir você. Não precisam nem sequer se concentrar para se auto purificarem.

Flávia reparou que um vapor cintilava em azul vivido ao redor dela própria especificamente onde seu corpo havia se ferido. Mas a dor ainda era intensa.

Sacou a pistola novamente. Mais três disparos. Apenas um atingiu Haniel no ombro. Ele juntou as palmas e criou uma espada de energia amarela. Continuava vindo na direção dela.

Flávia estava quase desesperada. Não podia correr. E era impossível lutar contra alguém que não morre. Estava quase entregando os pontos.

Um relâmpago rasgou os céus e atingiu o canteiro na lateral de onde eles estavam. Ela então lembrou do que Lúcifer havia dito. Pensar que as balas são relâmpagos. Se concentrou e começou a repetir mentalmente isso na sua cabeça: “balas são relâmpagos” “balas são relâmpagos” “balas são relâmpagos”…Disparou novamente.

Milagrosamente não aconteceu nada.

A bala atingiu o peito do anjo negro que curou o ferimento rapidamente.

Tentou mais quatro vezes. E nada.

Haniel estava a passos dela.

Não podia morrer assim. Por mais que não quisesse admitir sua vida tinha sido vazia por um bom tempo. Tinha se apegado à sua carreira e os relacionamentos fúteis apenas para tentar preencher esse vazio. Inocêncio foi o que chegou mais próximo de preencher esse espaço mais nem ele tinha sido capaz. Afinal o que ele diria se a visse hoje? Se a visse agora? Não podia deixar as coisas acabarem assim. Tinha encontrado um horizonte e se sentia melhor do que jamais estivera.

Fechou os olhos e se concentrou, mentalizando com todas as forças um relâmpago.

Haniel chegou até ela.

_ Últimas palavras aberração.

Flávia sentiu como no dia em que tinha se transformado. A matéria se revirando dentro dela, mas numa intensidade bem menor do que na primeira vez.

Abriu os olhos que cintilavam o vapor azul faiscante.

_ Foda-se!

A meio anjo puxou o gatilho e um relâmpago se materializou do cano da arma atingindo Haniel em cheio, o arremessando do outro lado da rua, fazendo ele se chocar violentamente contra um poste que rachou.

Flávia estava feliz pelo feito, mas todo o pensamento que vinha em sua mente era fugir, tentou correr, mas suas pernas não obedeciam. Sentiu uma fraqueza tomando conta do seu corpo. Mal conseguia ficar de pé.

Suas omoplatas arranhavam como se fossem cair.

Para seu terror a voz do anjo de ébano irrompeu na madrugada.

_ Maldita aberração! Você não pode se mexer não é?! Usou pela primeira vez Rei-ki e tudo tem um custo. Agora você vai pagar. Liberação de restrição.

O anjo de ébano se pôs de pé. A pele refletia um brilho amarelado e ralo. As asas saltaram de repente das costas e eram amarelas como a energia que emanava dele, de penas longas e felpudas. Os olhos do anjo de ébano faiscavam.

Juntou as palmas da mão novamente e a bola de energia apareceu, desta vez a junção de poder era dez vezes maior quando ele ergueu a concentração na mão.

A esfera brilhante era do tamanho de um carro.

Flávia não conseguia nem se mexer. Viu a bola ser liberada e vir na sua direção com uma velocidade absurda.

O impacto foi devastador.

Primeiro ela sentiu o corpo implodir e queimar por dentro. Depois a força a arrancou do chão fazendo-a subir estourando a parede do prédio Palomo no processo. Quando a força se dissipou ela sentiu o corpo cair e se chocar violentamente contra o chão.

Tentou não desmaiar. Fez uma força gigantesca para não se entregar. Mal conseguia sentir o mundo ao seu redor. Apenas o barulho da chuva e de passos nas poças vindo em sua direção.

O anjo de ébano a agarrou pela cabeça. Colocou o corpo dela de joelho.

_ Vou acabar com isso de uma vez. Nós chamamos isso de o beijo de Icaro. O ato de arrancar as asas de outro anjo. No seu caso meio anjo ou como prefiro: Aberração.

Flávia estava com o corpo totalmente destroçado. Sentia que o vapor tentava agir mas era muito devagar e muito pouco eficiente nesse momento. Pensou no fim. Tinha vontade de viver, não queria partir assim. Não assim.

_ Por favor…Não.

As palavras quase não saíram dos lábios dela.

Haniel segurou ela pelas omoplatas. Flávia conseguia sentir o calor nas suas costas.

_ Apenas desapareça.

Repentinamente na esquina o ribombar de um trovão e o som de mil lamentos ensurdeceu ela. Viu uma luz negra se espalhar pelo lugar e uma criatura sublime estava ajoelhada na sua frente.

Lúcifer?

Sim. Flávia viu. Os cabelos tinham crescido e tinham uma forma ondulada e resplandecente. Os olhos brilhavam em tons de purpura. E a asa era negra, apenas uma, com penas escuras como as de um corvo.

Fez um afago no rosto dela. Se virou pra Haniel.

_ Você é apelão pra porra seu merda.

A asa de Lúcifer desceu como uma foice e cortou fora os dois braços de Haniel. O anjo de ébano soltou um gemido de pavor.

_ Sabe o que acho engraçado Haniel. Você é um anjo de ébano, mantenedor das leis, por orgulho ferido quebrou uma restrição para poder sobrepujar um adversário que não oferecia risco algum para humanidade. Vocês deviam ser puros. Deviam servir a ele_ Lúcifer apontou para cima e se ergueu.

Agarrou Haniel pelo pescoço o erguendo do chão, ele tinha o semblante do pavor no olhar.

_ Sabe o que acho mais engraçado ainda. Vocês usam o poder de forma banal e não honram as velhas leis e os antigos nomes. Deixe-me ensiná-lo que as palavras têm poder. Stella Perpetuum.

Flávia viu de novo os gritos de lamento irromperem do nada e um turbilhão de almas enegrecidas rodearem o corpo de Haniel como piranhas devorando sua essência e destruindo a sua matéria, finalmente se dissipando para o ar em uma explosão negra.

Lúcifer se voltou para ela.

A luz opaca sumiu e o mundo novamente ganhou sua cor.

_ Haniel foi destruído. Não existe mais retenções aqui. Tenho pouco tempo e muito a lhe ensinar. Para ser preciso usei minha penúltima dádiva e tenho pouco menos de seis minutos.

Estendeu a mão para ela.

Assim que a meio anjo tocou a mão de Lúcifer sentiu o mundo dobrar e a vertigem de dez quedas em looping se abater sobre ela. o chão sob os seus pés desapareceu e em um piscar de olhos estava nos céus mais azuis que já tinha visto.

Muito, muito acima das nuvens.

Lúcifer a soltou cuidadosamente em um pilar que mal tinha espaço para um dos seus pés.

_ Apenas relaxe. Seu corpo se equilibrará sozinho.

Flávia obedeceu meio desengonçada seu corpo estava quase completamente curado. Achava que Lúcifer havia ajudado no processo.

_ Onde estamos?

_ No lugar onde os anjos vem para cair. No lugar onde eu fui arremessado na terra depois de perder a batalha pelos céus. Chamamos ela de “Turris Ruina”. Eu vinha aqui todo dia depois da minha queda. É o mais próximo que se pode chegar do “céu”.

Flávia notou que Lúcifer estava diferente. Sereno. Não falava de maneira debochada e sua visão em contraste com o céu azulado era a coisa mais bonita que ela já tinha visto em toda sua existência.

Ele puxou um pequeno livro marrom. Como um diário. Tinha uma fita o fechando.

_ Tome não tenho tempo de ensiná-la. Mas tudo que você precisa saber para sobreviver e quem encontrar está aí. Não posso mais ficar na puta da borborema. Terei que encontrar um novo lugar para me manter afastado e guardar minha última dádiva para uma ocasião especial.

_ Mas você é o Lúcifer. Eu vi o seu poder. Quem poderia estar acima de você na terra.

_ Ninguém, mas meu poder na terra é mínimo enquanto eu não liberar minha dádiva. E como você bem notou se é uma boa detetive isso só me dá sete minutos. Sete minutos como um Serafim de uma asa só.

Lúcifer olhava pra cima pra um horizonte distante.

_ É lindo não é? O céu e toda sua glória. Tão extenso e tão complexo. Tantos lugares. Tantos anjos.

Flávia não via nada além do horizonte azul. Percebeu que lágrimas corriam pelo rosto da mulher. Se ainda poderia chamar ela de um ser com gênero.

_ Tenho que ir… Flávia Maxmilliano não é?

Ela assentiu com a cabeça.

_ Eu espero que eu tenha te ajudado. Não é todo dia que se conhece Lúcifer na sua forma mais sublime e vive para contar a história. Isso seria uma benção mas no seu caso tenho quase certeza que será o contrário.

Ele foi se distanciando.

Ela gritou.

_Espera Lúcifer não vai. Como faço para descer daqui.

Ele se virou para ela ainda planando de costas e abriu aquele sorriso debochado de antes.

_ Você agora é uma caralhuda com asas. Apenas voe.

E desapareceu no céu distante.

Flávia mal tinha sentido, das suas omoplatas haviam surgido um par de imensas asas alvas como a manhâ. As penas eram longas e tinham o toque macio de penas de um pássaro plumado. Instintivamente as trouxe para frente e as tocou com a mão. Eram reais e tão bonitas. Estava emocionada com certeza.

Guardou o livro e olhou para baixo.

Nos seus sonhos mais infantis sempre quis sentir a sensação de voar. Abriu as asas e caiu.

O vento no rosto e a liberdade da queda lhe fizeram talvez o ser mais feliz em toda a criação.

Era livre.

Estava voando. Voando.

flavia max

Por Jefferson Lopes (@jeffersonwayne)

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