O Canibal da Borborema – Ato VIII – Berserker Parte 1

o canibal ato 8 com logo

 

23h59.

Inocêncio estava amarrado a um poste de concreto no meio do campo de educação fisica da Uepb.

Ao seu redor vários integrantes do time de rugby faziam uma pequena reunião.

Inocêncio estava até calmo mesmo lembrando da maneira como chegou até ali.

O cão era um lobisomem e tinha tentado matá-lo e foi impedido pelos outros integrantes do time que também eram lobisomens e o seguraram no momento que ia descer a garra em Inocêncio e acabar com sua vida.

Mas que porra de mundo insano era esse? Ser confrontado com a porra de coisas sobrenaturais que ele so via na ficção era putamente maluco. Tudo na sua vida era maluco nos últimos tempos. Isso o fazia questionar sua sanidade. Apesar de que por mais que ele quisesse que a porra das coisas fossem irreais, não adiantava estava tudo na cara dele.

Diante dos seus olhos.

Arturo gesticulava e eles se comunicavam através de rosnados. Inocêncio não compreendia absolutamente nada, no entanto pelos gestos corporais pareciam debater calorosamente sobre o destino dele próprio. Arturo parecia tentar interceder por ele. Enquanto o cão obviamente era a força contrária.

Depois de alguns minutos.

Arturo se voltou para ele com uma expressão estupidamente preocupante no rosto.

Merda. Merda. Merda.

Saco. Saco. Saco.

Porra. Porra. Porra.

Os outros do time começaram a se alinhar um de fronte ao outro na lateral onde Inocêncio estava preso e o presidente veio falar com ele.

Tirou sua mordaça. Pedindo para que ele não gritasse.

_ Tenho uma notícia não muito boa para você meu caro.

Inocêncio fez uma careta.

_ Manda ai.

_ Eu não sei exatamente qual era a intenção do Frank te enviando aqui. Mas você está no lugar errado na hora errada. Eu e meus companheiros estamos prestes a entrar em uma caçada e pelos nossos ritos não podemos te julgar apropriadamente e nem fazer você passar pelos rituais de esquecimento. Você viu coisas que somente a “familia” pode ver e como falei antes a hora é tremendamente dificil. Você nem sequer tem a licantropia no sangue. O que dificulta ainda mais as coisas.

Um sentimento de angustia começava a se apoderar de Inocêncio enquanto escutava Arturo.

_ Nós votamos e decidimos pelo seu exílio na zona de barreira.

_ O que é isso?

_ É o mundo por trás do mundo. Se você considera essa cidade uma puta, esse lugar seria as entranhas da alma corrupta dela. É uma terra sem lei e de horrores. Um lugar para onde toda a escória e criaturas inferiores do mundo inteiro foge depois de praticar seus crimes. Não vou mentir para você Inocêncio. Seria mais fácil lhe matar aqui. Privaria você da dor, mas eu fiz um voto a mim mesmo que apesar de tudo eu prezaria pela vida dos humanos. E você é tão humano que eu não permiti que o cão te matasse assim que você apareceu. Não nutra rancor por ele. Acabou de descobrir que um de nossos companheiros foi morto. Estava apenas descontando o ódio.

Inocêncio não sabia o que esperava ele. Mas estava com uma puta vontade de chorar, de gritar. Era como se uma pressão se instalasse nele enquanto descobria seu destino e essa merda não fazia sentido algum.

_ Porque você simplesmente não me deixa ir embora. Não contarei nada a ninguém. Vou pra casa e ficamos de boa.

_ Como eu lhe falei não é tão simples. Somos a última matilha regular da cidade e temos de zelar pelo nosso anonimato. Imagine se as pessoas descobrissem que o time de rugby da cidade é formado por lobisomens. Você pode achar absurda nossa resolução e achar que estamos brincando com sua vida, infelizmente o tempo urge e eu amaldiçoo a grande loba pela sua falta de sorte.

Arturo amarrou o colar no pulso direito de Inocêncio.

_ Vou lhe dar umas dicas. A chance de que você sobreviva é quase nula. Embora exista uma pequena esperança se você seguir para o norte. Na nossa última missão o rio dos sapos estava seguindo nessa direção. Os sapos são familiares do guardião. Ele é um protetor das portas da zona de barreira, se você o encontrar ele talvez possa te mandar de volta.

Inocêncio estava conseguindo fixar muito pouco do que Arturo dizia. O medo perpassava ele como uma flecha. Tinha acabado de escapar da morte e a pessoa, ou melhor criatura a sua frente estava dizendo que iria mandar ele para a morte certa.

_ Lembre-se se você vir qualquer coisa tente fugir ou se esconder. Você está sendo enviado para um lugar hóstil. E é só um humano.

As pessoas que estavam nos arredores começaram a se aproximar e se encostaram nos integrantes do time fazendo orações. Outros abraçavam-nos. Alguns dividiam cigarros de ervas, talvez maconha. Outros brindavam. Todos pareciam unidos como uma familia. Então Inocêncio percebeu que era sobre isso que Arturo se referia antes. Eles eram uma comunidade. Uma família.

Os membros que não faziam parte do time se afastaram e Inocêncio percebeu que os outros faziam uma formação fixa do rugby ou se preparavam para tal.

Indagou.

_ O que eles estão fazendo? Eu estou te pedindo cara. Só mais uma vez, me deixa ir. _ As palavras saiam da boca de Inocêncio sem força, quase conformadas.

Arturo estava terminando de tomar um copo de cerveja.

_ Estão abrindo a zona de barreira. Nossos ritualistas eram os responsáveis por abrir as passagens, mas foram na maioria mortos no lugar pra onde você vai. Então com o tempo aprendemos a abrir as passagens meio que na força bruta.

Inocêncio só havia participado de um treino mas havia aprendido que o que eles estavam se alinhando para fazer se chamava de scrum  Uma formação fixa de disputa de força. Oito jogadores de cada lado se alinhavam em um aglomerado de massa humana e tentavam empurrar o outro lado para ganhar a bola. Só que nesse caso não havia bola.

Os dois lados se atingiram e começaram a disputa de força, os corpos agarrados e curvados rente ao chão, alinhados em uma formação que parecia impossível para qualquer espectador que não entendesse o minimo do esporte. Inocêncio começou a ver fagulhas exatamente no meio da disputa de forças. Faíscas amarelas subiam como se uma fogueira fosse se acender.

Dos lados da formação em pé estavam Pretinha e o Capita. Atentos como se quisessem capturar alguma coisa.

Derepente os gritos dos integrantes do scrum eclodiram e Inocêncio pode ver as transformações acontecendo e a disputa de forças quase implodir graças ao ganho de massa muscular gigantesco de ambos os lados. Lobisomens em uma disputa de scrum. As faiscas explodiram como argolas quando as transformações aconteceram e Pretinha e o Capita atacaram-nas como flechas segurando-as e colocando cada uma de um lado dos scrums.

Os presentes gritaram com o sucesso da manobra. O capita conduziu uma das argolas para o lado direito de Inocêncio. A outra pretinha segurava próximo aonde tinha acontecido o scrum.

Com uma força descomunal o lobisomem abriu a argola a transformando num portal. Os aros faiscavam em dourado como um chicote de energia querendo se liquefazer.

Os lobisomens começaram a entrar pelo portal que Pretinha também tinha fixado do outro lado. Todos olhavam com um olhar de pena para Inocêncio que jazia amarrado.

O cão se aproximou. Ele era gigantesco e aterrrorizante. Rosnou para Arturo que era o único ainda não transformado de todos do time ali.

Arturo olho para Inocêncio e disse.

_ Eu vou lhe soltar. Não tente fugir apenas prepare-se para o que vem depois. Lembre-se do que lhe falei, encontre o rio. Siga o rio. Para o norte.

Com um único movimento desvencilhou ele das cordas e antes que Inocêncio pudesse ter qualquer reação o cão avancou sobre ele o agarrando pelo pescoço. Sentiu as vias arteriais se comprimirem. O lobisomem girou ele duas vezes no ar e o arremessou com uma violência descomunal para o arco dourado que o Capita havia aberto. Enquanto voava em direção ao arco pôde ver Arturo se transformando. Tinha a pelagem branca.

Ao passar pelo portal instantaneamente sentiu o corpo inteiro formigar e uma sensação de peso tomar seu corpo como se a gravidade tivesse sido alterada. O portal atras dele explodiu como se fosse um espelho se liquefazendo.

ato viii berserk parte 1

Estava sozinho.

O lugar onde ele estava era estranho. Tinha uma lua cheia e vermelha no céu, o que deixava tudo num tom sépia quase rubro. Como se ao invés de noite fosse um entardecer de sertão.

Notou que não estava mais no campo de educação fisica da uepb e sim em um planalto com folhas retorcidas de uma plantação de caatinga. Tinha casas de taipa que estavam sendo levadas pelo vento.

Ventava forte e em segundos eles estava coberto por uma foligem como poeira de serrilhagem.

Seus olhos lacrimejavam.

Inferno. Inferno. Inferno.

Purgatório. Purgatório. Purgatório.

Saco. Saco. Saco.

Colocou a mão na frente do rosto e começou a andar ate uma das casas para procurar abrigo.

Ao se aproximar sentiu um caláfrio percorrer seu corpo. Como um sentimento ruim. Ao pegar na porta aos pedaços sentiu como se alguem desse um rosnado e viu as casas se tornarem pó. No lugar onde elas estavam o chão ficou tomado por baratas mortas.

Aquela merda estava ferrando com a cabeça de Inocêncio. Só podia estar sonhando. Aquilo não era real.

Pisou em uma das baratas e ela estralou sobre seus pés. Bem as coisas morriam então devia ser real.

Estava perdido.

Literalmente.

Refletiu por um breve momento como havia chegado num lugar como aquele. Porra era só um cara comum. Com uma vida comum e tinha sido pego e jogado numa miriade de merda sem fim.

Praguejou!

Mas ao mesmo tempo, retomou a consciência. Pensou e pensou enquanto se escondia do vento de foligem em um escombro de uma das taperas que tinha sobrado. E se ele conseguisse de alguma forma fugir dali.

Arturo tinha mandado ele seguir o rio para o norte. Só precisava encontrar um rio e pelo pouco que ele entendia de astronomia deixar a lua a sua direita para achar o norte.

Improvisou um lenço no rosto com um pedaço da camisa e começou a caminhar.

Andou por quase uma hora. Enquanto caminhava pela caatinga daquele planalto notava que animais ou alguma coisa as vezes espreitava por ele nas sombras, mas alguma coisa as repelia. Era como se ao sentir o cheiro dele elas se afastassem. Bem pelo menos ele pensava assim e não parava de caminhar.

Caminhou. Caminhou e caminhou.

Chegou a uma elevação e ao alcançar o topo toda geografia do lugar mudou. A caatinga deu lugar a um descampado com terra, pedras e vegetação rasteira, cortadas por um rio de água verde. O rio seguia para o norte. Pelo menos assim ele achava. Nunca foi bom com localização. E não estava com celular ou uma bússola para lhe dizer o caminho.

Desceu pela encosta do pequeno morro vagarosamente e com cuidado. Não queria fazer barulho agora que não tinha mais a vegeetação para dar o minimo de ocultabilidade a ele. A verdade é que estava só.

Com medo.

Assustado.

Aterrorizado.

E começava a demonstrar sinais de cansaço e sede. Uma sede gigantesca tomava conta dele. Ansiava por chegar o mais rápido possível ao rio e beber da sua água.

Chegou aos tropeções e se ajoelhou perto do rio, quando punha as mãos em concha para beber ouviu um miado próximo dele.

Tinha um gato siamês sentado lambendo a pata dianteira esquerda e olhando maliciosamente para ele.

Fez um chiado com a boca e voltou sua atenção para o rio quando ouviu alguém dizer com uma voz lânguida e sorrateira.

Eu não faria isso se fosse você.

Tomou um susto monstruoso e caiu de costas no chão já se preparando para fugir, quando olhou ao redor não viu ninguém apenas o gato.

Foi ai que seu coração disparou mais ainda. E teve de se conter para não gritar de terror.

É isso mesmo seu merdinha. Fui eu quem falei. Tá me estranhando porquê? Eu sei falar igual a você seu palhaço!

A porra do gato estava falando. Tinha visto a horas atrás a porra de lobisomens e agora estava diante de um gato falante.

_ Que merda é você? _ indagou Inocêncio desconfiado mantendo uma distância segura do gato.

O gato se esticou espreguiçando.

Estou lhe dando um aviso seu merdinha, não beba dessa água. È como se fosse urina de rato para você. Quem te deu a porra da “Pulseira de Terribilidade”?

_Não tenho a minima ideia do que você está falando. Na verdade não sei nem se estou falando com você. Devo estar alucinando.

_ Uma merda que está seu merdinha! Essa pulseira provavelmente deve ser o único motivo de você ainda estar respirando. Por falar nisso o que porra um homem comum como você está fazendo por essas bandas?

Inocêncio deu de ombros como se não se importasse com a porra do que o gato falava. Estava com tanta sede que não estava mais se lixando se o que via era real ou não.

Bebeu da água.

Vomitou em segundos depois do terceiro gole.

_ Eu avisei seu merdinha. _ Zombou o gato.

Inocêncio limpou o rosto ainda com o mal-estar tremendo no estomago e garganta e continuou andando. Rio acima.

O gato começou a acompanhá-lo. Ele parou.

_ Escuta gato falante de uma porra. Eu estou tendo um dia terrível. Não estou conseguindo distinguir o que é real do que é imaginação e estou realmente com muita sede. Então se você não tiver um cantil de água limpa no cú para me dar. Segue teu rumo.

O gato caiu na gaitada. Ver um gato rir era bem bizarro para Inocêncio a essa altura do campeonato.

_ Você é o homem comum mais hilário que já vi. Não que eu tenha visto muitos. Cê sabe que cê vai morrer aqui né?

_ Não ferra gato. Já que você fala, me diz algo útil. Se eu seguir esse rio vou encontrar o guardião?

_ Quem te falou sobre o guardião?

O gato levantou as orelhas.

_ Um grupo de lobisomens que joga rugby.

_ A última matilha? Bando de heroizinhosss de fazenda de formigasss. Acreditam que podem mudar o mundo um dia de cada vez. Mesmo assim admiro a rebeldia delesss. Quase nunca vejo aquelesss merdasss. Gosto de sacanear com elesss.

_ Bom eles me disseram que se eu encontrar o rio dos sapos e encontrar o guardião ele pode me enviar para casa.

Enquanto Inocêncio falava e andava começou a ouvir um zumbido de moscas. Algumas delas já começavam a cruzar seu caminho.

O gato parou ao notar as moscas.

_ Merda seu merda, isso não é nada bom. Moscasss significa que um pútrido está por perto. E você não vai querer bater de frente com um.

O gato está mais ativo e começou a correr bem mais rápido seguindo a margem do rio. Inocêncio o acompanhava como podia e já começava a sentir um cheiro bizarro de coisa podre.

Chegaram a uma formação de pedras gigantescas que restringia a subida do rio formando um gargalo.

Inocêncio estancou procurando o melhor lugar para atravessar e nesse momento sentiu o cheiro de carniça que vinha do caminho atrás deles.

Virou instintivamente.

Porra. Porra. Porra.

Caralho. Caralho. Caralho.

Insano. Insano. Insano.

Inocêncio virou e viu a maior bizarrice que já tinha visto em todo esse tempo em que tinha se deparado com o sobrenatural.

Uma Aranha.

Uma aranha gigante.

Devia ter o tamanho de um prédio de 4 andares.

Estava se arrastando com as pernas dilaceradas e purulentas acompanhadas de milhares de moscas que se besuntavam nas feridas dela. A boca gigantesca excretava uma baba transparente que ao tocar o solo gerava uma mini explosão silenciosa mas que parecia uma granada explodindo e que fez uma pequena cratera no chão.

O gato notou a aranha e soltou um fodeu forte seguido de um miado agoniado.

_ Me siga humano, e não olhe para trásss. Essa é Theraphosa, a ex-rainha do covil de pútridosss da corte sul. Ela estava aprisionada e isso quer dizer que alguém a libertou. Temosss que chegar rápido até o guardião.

O gato correu para dentro do rio e pulou na água no gargalo que as rochas formavam estreitando o rio. Inocêncio não pensou duas vezes. Apesar de estar quase paralisado de medo e terror. Deu as costas a monstruosidade atrás de si e pulou no rio no mesmo lugar que o gato pulou.

A água gelada deu um choque de adrenalina em Inocêncio que nadou cerca de 10 metros debaixo d’água para sair do gargalo. Do outro lado viu que as margens voltavam a se alargar, mas a pressão do gargalo formava uma corrente que aos poucos o arrastava.

Nadou até a margem.

O gato molhado se chacoalhava numa pedra próxima.

o canibal act 8 pt 1

Repentinamente uma explosão a dez metros de distância fez Inocêncio se jogar no chão. Ao cair se deparou com Theraphosa no alto do gargalo excretando mais da baba explosiva.

O gato gritou para ele não ficar parado e o acompanhar.

Vamosss seu merdinha! Ela está tentando nos picotar para depois se alimentar da gente. Corra e me acompanhe se chegarmosss na estrada de nuvem podemosss ter alguma vantagem.

Inocêncio não compreendia muita informação, queria apenas fugir o mais rápido que pudesse dali. Tentou seguir o gato enquanto as bombas de ácido caiam próximo a eles como morteiros na primeira guerra.

O gato imprimia um ritmo alucinante que Inocêncio acompanhava com sofreguidão mesmo com a adrenalina o impulsionando. Começava sentir o cansaço aparecer no seu corpo e seu ritmo diminuir.

O gato percebeu.

Porra seu merdinha por isso detesto seres comuns. São moles como cadelas no cio. Corra o máximo que conseguir. Estamos perto.

Inocêncio correu o máximo que conseguiu, mas realmente o seu nível era bem inferior ao do gato. E a aranha gigante começava a se aproximar dele perigosamente. Mesmo que ela andasse quase rastejando devido as pernas dilaceradas.

O gato parou e gritou com ele.

Chegamos seu merdinha. Me pegue no colo rápido. Seremos mais rápidos se você me carregar.

Inocêncio não entendeu nada, mas obedeceu ao gato.

Ao subir uma pequena elevação Inocêncio estancou. Estava num precipício e uma cachoeira feroz de perder de vista estava diante dele. No horizonte viu a London Eye despedaçada e brilhando com um neon fosco e chamativo. Esfregou o rosto e pensou em se beliscar. Só podia estar num sonho. Esse lugar estava muito errado.

_ Está vendo a cachoeira seu merdinha! Você vai se jogar direto nela. Depois de um tempo de queda um dos gêiseres nos jogara na Estrada de Nuvem.

_ Mas do que porra você tá falando. Não tem estrada nenhuma aqui. Só uma queda para a morte.

A vista para baixo realmente não era das mais animadoras. Mas uma explosão o fez lembrar do senso de urgência. Theraphosa vinha cambaleando na direção deles e já estava a poucos metros.

Pare de discutir e obedeça seu merdinha! Só tenho mais duasss vidasss e não quero usar uma com você! Salteee!

Inocêncio não gostava nada da ideia de saltar, mas se via sem escolhas visto a situação. As moscas já rodeavam ele e o gato nas suas mãos. Mais duas explosões uma de cada lado o fizeram estremecer.

Deu dois passos para trás segurando o gato firmemente contra o peito e correu saltando na cachoeira.

A queda o fez pensar na vida e na morte. A agua era gelada e o contato com sua pele era estranhamente perturbador visto que ele parecia uma bomba de bombardeiro caindo em pé. Sentia a sensação de uma descida de montanha russa das mais fulminantes. Calculou a queda e achou que já devia ter caído uns 200 metros.

Foi surpreendido com uma força contraria que o envolveu como se estivesse num tubo de uma onda, só que totalmente imerso dentro d’água se sentiu arremessado para cima com um loop, exatamente como uma montanha russa.

Deve ter subido uns quinhentos metros em um vértice para frente com o arremesso e viu quando a agua começou a abandonar seu corpo fazendo ele perder força e cair novamente, só que dessa vez a queda não durou um segundo e sentiu seu corpo se chocar contra o que parecia ser um grande travesseiro de algodão.

O gato já tinha se desvencilhado do seu abraço e se lambia olhando para ele.

_ Conseguiu seu merdinha! Você até que não é dos pioresss. Não vomitou nem se cagou todo. Talvez tenha alguma fibra ai.

Inocêncio levantou. O travesseiro era gigantesco e parecia uma estrada de mão dupla. Ao olhar bem viu que era exatamente isso. Um caminho sinuoso no céu que se estendia até o horizonte se perdendo de vista.

Mais uma vez viu a London Eye ruida ao longe. Não conseguia entender o que o ponto turístico mais famoso da Inglaterra fazia naquele lugar ainda mais naquela situação lastimável.

Um tremor o fez voltar dos seus pensamentos.

Olhou para trás e viu Theraphosa andando no ar de uma maneira terrivelmente desengonçada. Demorou a entender que ela subia por uma teia na direção da “Estrada de Nuvem”.

O gato foi rápido.

Corra! Temosss que partir a teia, é nossa única chance de nos livrarmosss dela.

Saiu em disparada em direção de onde virtualmente Theraphosa chegaria. Inocêncio o seguiu e notou que ao correr o seu corpo era impulsionado a cada vez que seu pé tocava o chão. Deve ter percorrido os 100 metros de distância em quatro segundos. Ao parar se flagrou com um sorriso de criança no rosto. E pensou no que o Usain Bolt acharia desse lugar.

Notou ao olhar ao redor que as teias eram duplas e as camadas grossas se prendiam na estrada.

_ Rápido! Pegue um pouco da matéria de nuvem e molde como uma espada. Ao se desprender e entrar em contato com o ar ele se solidificará em segundos.

Inocêncio obedeceu quase que automaticamente e em segundos tinha um facão improvisado de matéria de nuvem na mão. O gato o mandou cortar as teias da esquerda enquanto correu dizendo que cuidaria das teias da direita.

Inocêncio fez o que podia para cortar as teias gelatinosas, mas de pouco adiantou. Elas eram de um material aderente que não se partia fácil. As moscas já rodeavam o lugar e o cheiro de podridão também.

o caniba ato 8 pt 1l

Estava batendo forte com o facão improvisado de maneira desesperada quando o gato o interrompeu.

Vamos seu merdinha! Não vai adiantar! Temosss que nosss distanciar o máximo que pudermosss. Essa maldita já chegou aqui.

Inocêncio então se deu conta de que a aranha já estava com as patas em baixo da estrada de nuvem e começava a ajeitar o corpo para subir. Olhou para trás e viu o gato em disparada em direção ao norte seguindo pelo caminho.

Em instantes endireitou seu corpo para correr e como anteriormente sentiu o impulso que aquela estranha matéria de nuvem dava ao seu corpo, enquanto acelerava olhou para trás e viu que Theraphosa estava muito desengonçada tentando endireitar o corpanzil, notou que se atingisse ela com uma ombrada se utilizando desse impulso extra que a estrada lhe dava talvez pudesse derruba-la. Parou no meio do movimento estancando.

Pensou.

Pensou.

Pensou.

Refletiu.

Refletiu.

Refletiu.

Paralisou.

Paralisou.

Paralisou.

Porque não conseguia agir.

Tinha visto a oportunidade e não conseguia se mexer.

Porque o medo?

Seria ele um covarde?

Será que era por isso que nunca conseguia reagir os assaltos, por isso que sempre era a ovelha?

Não.

Dessa vez não!

Ajeitou o corpo como um atleta sentiu os seus músculos se flexionarem, podia ainda estar com medo e com um frio esquisito na barriga, mas não seria a presa, seria o caçador.

Avançou enquanto escutava o gato gritar ao longe para ele parar, não deu ouvidos.

 Sentiu o ar friccionando contra a pele, os músculos se distenderem.

A aranha gigante ficando cada vez maior ao passo que ele se aproximava e ao virar o ombro direito focou no que seriam as costelas, se é que uma aranha tinha costelas e se jogou saindo do chão, batendo com todo o impulso que lhe era dado por esse lugar na ex-rainha dos pútridos da corte sul.

Tudo isso em uma fração de segundos.

Sentiu um choque como se o lado direito do seu corpo tivesse morrido, o corpo da aranha parecia ser feito de ferro, mas a sua ideia mesmo que estabanada acabou dando certo.

A aranha estava com o corpo mais para fora do que para dentro da estrada e com o impacto no seu abdômen foi emborcada para o lado esquerdo não tendo tempo de se endireitar e caiu no céu sem fim.

Inocêncio depois de bater naquela montanha em forma de aranha recebeu o impulso contrário se chocando violentamente contra a estrada, sentindo uma dor excruciante no local onde tinha atingido a aranha, fora o corte no supercílio esquerdo que jorrava como uma torneira aberta em sua cabeça.

 Sentou-se olhando ao redor e viu o gato parado à sua frente lambendo as patas.

Mas que porra seu merdinha! Realmente você não é de se jogar fora, mas como um bom humano comum que você é, mandou bem na entrada, mas cagou na saída. Entrou em contato direto com Theraphosa e isso custou a seu corpo o que chamamosss de chaga de putrefação. Espero que você ainda aguente correr, só quem pode curar essa chaga é o guardião. E eu estou com um pressentimento ruim com relação a isso tudo. Se puder me acompanhe seu merdinha! Se não fique ai servindo de comida para moscasss.

Inocêncio ainda estava meio zonzo da ação de segundos atrás. A adrenalina ainda não tinha abandonado seu corpo, apesar da dor se fazer presente e o sangue incomodar sua visão. Não pensou duas vezes. Se ergueu e partiu atrás do gato.

Enquanto corria naquela velocidade extrema ampliada pela Estrada de Nuvem notava que a aceleração o prendia no chão como uma força gravitacional contraria aos rodopios que o caminho dava. Algumas vezes o caminho serpenteava o fazendo ficar de cabeça para baixo e mesmo assim ele não caia. Outra coisa que reparou foi que o seu corpo não era feito para correr naquela velocidade altíssima. Cada vez que tirava o pé do solo de nuvem sentia dor e como se seus ossos fossem partir, mas assim que recolocava o pé em contato com o chão sentia um alivio imediato nessa pressão. Achou que isso devia ser alguma propriedade mágica do lugar ou algum estado físico alterado daquele ambiente hostil.

Era impressionante como podia estar pensando e passando por tudo isso. Não gostava dos rumos que as coisas estavam tomando e as vezes achava que isso era um grande sonho, ou melhor, pesadelo. Há alguns dias estava entediado pensando na rotina do trabalho e nas noites chuvosas da puta da Borborema e agora já tinha encontrado lobisomens, um gato falante, aranhas gigantes e mais uma caralhada de coisas estranhas e bizarras. O pior de tudo é que esse sentimento de aventura misturado com o medo e a excitação do desconhecido de uma maneira surreal o fazia se sentir bem.

Era diferente, mas de alguma forma Inocêncio começava a sentir que fazia parte de algo, mesmo que fosse à luta pela sobrevivência em um lugar que mais parecia o inferno.

Viu que a estrada pegava uma grande descida e viu uma casa gigante em estilo japonês no final do que parecia ser o caminho. O rio seguia a direita. E na esquerda tinham várias arvores de ipê murchos. Um pouco mais a frente podia ver a London Eye arruinada. Pendia para direita e os neons estavam em curto. Ver uma roda gigante daquela magnitude em ruinas era assustador. Nesse tal lugar, nessa zona de barreira era como se todas as coisas estivessem se liquefazendo em um estado de tempo avançado. Era bem insano se um observador como Inocêncio se apegasse aos detalhes.

Chegou ao final da estrada de nuvem e viu o gato parado olhando para frente.

Ao parar sentiu os efeitos de um cansaço extremo. Olhou para o ombro e o braço e viu que as veias estavam vascularizadas e enegrecidas. O susto da aparência do próprio corpo o abateu mais ainda.

Ia falar com o gato quando sentiu um turbilhão de vento como um tufão o afastar alguns centímetros para trás.

O gato gritava sem parar e de onde ele estava um mini tufão se dissipou e Inocêncio viu um gato bípede antropomórfico com um cajado na mão e roupas monásticas.

_ Não pode ser! Ela está muito fraca para enfrentar algo assim!_ Disse o gato enquanto olhava para a casa.

O mesmo mini tufão que tinha transformado o gato, o teleportou para vinte metros de distância o fazendo aparecer no teto da casa japonesa.

Depois o mini tufão de novo e o gato desapareceu.

Inocêncio retomou o folego e correu o mais rápido que pôde, deu a volta na casa se deparando com mais uma cena que o fez duvidar de sua sanidade.

Continua…

Por Jefferson Lopes (@jeffersonwayne)

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