O Canibal da Borborema – Ato VIII – Berserker Parte 2

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Hora indeterminada.

Primeiro de todos os fatores.

Estava nevando.

Tinha uma mulher loira com tranças, com roupas rústicas e um cigarro na boca no alpendre da casa. Olhava para frente. Ajoelhado ao seu lado estava o gato.

Mas na frente deles, tinha um exército de cães negros como a noite, devia ter mais ou menos quarenta deles. E no centro deles um homem extremamente musculoso, talvez dois metros de altura. Os cabelos em um moicano desarrumado, eram finos e loiros e faziam contraste com a barba serrilhada negra.

Atrás do homem tinha uma garça gigante. Era tão aterradora quanto Theraphosa só que não estava tão putrefata quanto a anterior. Tinha uma corrente gigantesca presa ao pescoço que descia e se afunilava até o chão e estava sendo segurada pelo homem. Inocêncio tinha a impressão mortal de já ter visto esse homem em algum lugar.

A mulher falou. Sua voz era firme.

_ Então você é o tal Canibal da Borborema de que tanto ouvi falar nos últimos tempos.

A ficha de Inocêncio caiu.

Um ódio repentino cresceu dentro dele. Se esse animal estava aqui significava que Flávia provavelmente estava morta. Teve vontade de chorar, mas ficou imóvel nutrindo ódio pelo homem a sua frente.

_ Sim sou eu. E você é Jasmine Aquila. Guardiã do portal meridional Norte. Já foi tida como “A Domadora” por ter a maior quantidade de familiares dentre todos os guardiães, mas como os da sua linhagem você está fraca e doente. Todos os familiares abandonam seus mestres quando eles estão fracos e morrendo. Chegou sua hora…

_ Vejo que você sabe muito sobre mim. E pelo que pude notar é um homem de ação que acredita na força bruta. Veja o exército que você trouxe a minha porta. É admirável. Me diga o que você quer Canibal. Se eu puder evitar o confronto o farei.

O canibal coçou a cabeça. Claramente não esperava essa atitude da guardiã do portal.

Inocêncio se aproximou um pouco mais. Estava ficando zonzo e o frio consumia ele de maneira absurda. Ainda pensava como o clima podia ter mudado tanto repentinamente.

_ Quero a sua espada. Ela tem energia suficiente para que eu não precise da chave. Com sua espada eu posso forçar minha entrada no reino que ele deixou para trás.

Inocêncio então se deu conta que a mulher tinha uma espada Larga e gigantesca deitada ao seu lado. Antes ele pensava que era um tronco de arvore. Só ao ouvir a conversa percebeu o detalhe.

_ Ele? _ Indagou a guardiã.

_ Sim. A estrela da manhâ. Ele abdicou do inferno e eu serei o novo príncipe de lá.

A gaitada da guardiã rasgou a noite perturbando até mesmo Inocêncio. Era uma risada gutural de escárnio e provocação.

_ Essa talvez seja a maior piada que já escutei em toda minha vida. Lúcifer fechou o inferno com sete lordes beliais lá dentro. O que faz você pensar que um ser como você tem alguma chance de reinar lá? Não seja idiota.

O canibal estava pela primeira vez sem o ar de satisfação no rosto.

_ Além do mais para alguém que acredita na força bruta você está cauteloso desde que chegou aqui. E mesmo com esse exército não me atacou ainda. O que você receia Canibal?

A mulher deu um passo à frente, dando uma tragada longa no cigarro. Pegou a espada que estava no chão com apenas uma mão, realmente Inocêncio percebeu que era uma espada colossal. Devia ter 2 metros de comprimento e era mais larga que o corpo do próprio.

_ Essa espada se chama “Helenia de Ragnar”. Lhe darei ela de bom grado se isso evitar o derramamento de sangue nessa noite. Como você bem falou estou velha e fraca. Tome.

A guardiã lançou a espada no ar que caiu a uns vinte metros de distância, exatamente na metade do caminho entre as forças antagônicas.

Cravou na neve com um baque surdo e pendeu duas vezes antes de ficar estática.

O Canibal fitou desconfiado a ação da guardiã. Mas avançou lentamente até a espada.

_ Eu esperava mais de você Aquila. No entanto já que você me deu o que almejo deixarei você respirar mais algumas noites. A sua purificação não tarda.

Inocêncio não podia acreditar. Aquele miserável depois de dizer tudo isso. Sairia por cima. Talvez o tempo nessa tal zona de barreira tivesse afetado o discernimento dele. Estava totalmente imerso nesse mundo encrustado de sobrenatural e perversão. De loucura e poder. De realidade crua ou sonho vil.

Inocêncio olhou para o gato ele continuava ajoelhado e de cabeça baixa ao lado da guardiã. Impassível.

Assim que o Canibal encostou na espada abriu um sorriso de satisfação. Os dentes alvos pareciam uma janela no contraste com a luz de neon do london eye atras dele. A Garça gigante que ele segurava na corrente soltou ruidos disformes com o bico para cima. O som era bizarro e pertubador.

Deu as costas e começou a andar para longe quando novamente a risada de Jasmine debochada e aguda se alastrou pelo lugar.

_ Desculpa senhor Canibal é que para alguém que quer comandar o inferno o senhor é muito ingênuo. Acha mesmo que viria até aqui e eu lhe daria a “Helenia de Ragnar” de mão beijada assim. A Helenia é uma espada sentimentalista. Não gosta de ficar longe da sua dona. E quando é submetida ao contato direto de estranhos ela pode ficar triste e chorar. Lágrimas do Viking…

Ao desferir essas palavras a espada que estava na mão do Canibal explodiu em uma míriade de faiscas e fogo brilhante queimando o Canibal e o arremessando aos pés da Garça. Alguns cachorros que estavam próximos também ficaram em pedaços.

Inocêncio assistiu tudo com surpresa, e admiração ao mesmo tempo. Aquele miserável teve o que mereceu. Ninguém conseguiria sobreviver a uma explosão daquelas. Mas Inocêncio já não acreditava no impossível.

Tudo era possível.

A espada se rematerializou aos pés de Jasmine que a acariciou como se ela fosse uma criança.

De fato o Canibal se levantou. Metade do rosto estava em pedaços, o sangue e a face dilacerada pela queimadura o tornavam ainda mais monstruoso.

_ Sua cadelaaa!! Eu terei prazer em triturar cada osso do seu corpo e ficarei rindo enquanto você agoniza!

_ Palavras vazias canibalzinho. Você tem muita audácia mas até agora só fez falar. Estou velha e fraca é verdade. Ainda assim sou uma guardiã do Portal e você me subestima. Você pagará por ser tão incoveniente seu moleque! Todos meus familiares me abandonaram, mas o familiar primordial que é escolhido quando ganhamos o título de guardião morre conosco seu imbecil.

A mulher gritava as palavras na noite e Inocêncio podia jurar que até mesmo os cães davam passos para trás.

O Canibal soltou a garça da corrente e apontou para Jasmine. A fera avançou.

A Mulher por sua vez largou o cigarro.

_ Desperte FrogBotton! Eu exijo sua presença.

Ao falar isso a mulher ergueu a mão.

Simplesmente a casa atrás dela começou a ruir. A madeira se quebrou. As edificações explodiram e um sapo albino gigantesco se ergueu onde antes havia um castelo. Como o gato ele também era antropomorfizado. Tinha a cabeça mais angular semelhante a de um humano. Estava de pé em duas pernas e carregava um machado gigante na mão direita. Era albino. Tão branco que doia na vista. Vestia roupas rústicas parecidas com as que Jasmine usava e pasmém. Também trazia um cigarro na boca. Aceso.

Antes de falar qualquer coisa ele brandiu o machado tão rápido que o deslocamento de ar afastou Inocêncio uns dois metros para trás. O vento gélido quase o congelou. O ataque atingiu a garça do centro do corpo para a cabeça a despedaçando em duas com um grunhido doloroso.

O sangue e as viceras cairam no chão e por sobre o Canibal que permanecia imóvel.

_ Você sempre está metida em assuntos cabulosos não é mesmo mulher. Dessa vez acredito que você se meteu em uma que não pode lidar. Ele está com dois reis pútridos do lado dele. Acredito que você os tenha percebido nas sombras.

_Não me subestime FrogBottom. Nem me venha com lições.

A mulher fez um sinal para o gato.

_ Os mantenha ocupado Lucy Jordan. Creio que essa é sua sexta vida. Espero que faça valer a pena.

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O gato levantou e fez alguns gestos enquanto segurava o cajado na frente do corpo. Depois falou baixinho.

_ Sexta Muralha Circular. Conter.

Vários tufões sairam do cajado que brilhava e talharam a neve erguendo uma prisão circular de gelo que envolveu o canibal e os cães.

Na verdade, a parede era mais um esquife translúcido de gelo e vento. Além de aprisionar os inimigos, a muralha conseguiu revelar um leão gigantesco que Inocêncio sequer imaginara que estava ali. Era negro e a juba era feita de cobras como uma medusa.

Sua aparência era aterradora. Estava mais atras junto de um touro antropormofizado que estava de pé e de braços cruzados.

Ambos não gostaram nada de se ver presos na barreira.

Como antes Inocêncio pode ver que várias moscas estavam rodeando os seres.

Ambos eram tão grandes quanto a garça morta e o sapo chamado de FrogBotton. Inocêncio percebeu que em FrogBotton não tinha esse amontoado de moscas então imaginou que pelo que tinha entendido ele deveria ser outro tipo de criatura.

Assim que a barreira se ergueu Jasmine vacilou quase caindo de joelhos. O gato Inocêncio notou se chamava Lucy Jordan a amparou.

FrogBotton falou enquanto guardava o machado nas costas.

_ É melhor que você defina uma estratégia de batalha rápido mulher. De preferência uma que tire seu rabo velho e fraco daqui e leve esse bela adormecida junto com você. Aliás o que porra um bela adormecida está fazendo num lugar como esse? Numa situação dessas?

O sapo gigante falou. E o ar que saia de sua boca faiscava cristais de gelo. Ele olhava diretamente para Inocêncio que teve o primeiro impulso de fugir dali, mas se manteve de pé. Talvez por estar fraco. Talvez nem fosse coragem.

Lucy Jordan falou.

_ O bela adormecida tem fibra. Derrotou praticamente sozinho Theraphosa na estrada de nuvem usando força bruta e inteligência. Está com uma mácula de pútrido. Eu pensei que você poderia ajudá-lo mestra. Não imaginei que encontraria um campo de morte aqui.

Jasmine ficou de pé. Fez sinal para que Inocêncio se aproximasse.

Ele caminhou com dificuldade até ela.

A mulher olhou bem para ele o medindo. Viu as feridas e o braço e ombro tomados pelas chagas de cor enegrecida.

_ Qual seu nome?

_ Inocêncio. José Inocêncio.

_ Bem Inocêncio eu estou muito fraca para curar sua mácula de pútrido. Só há um jeito de curar essa sua doença. Te passando a minha.

Lucy Jordan ergueu os olhos numa expressão de espanto. FrogBotton falou que ela estava louca.

_Não me recriminem! Calados!!

Antes que Inocêncio pudesse sequer perceber o que estava acontecendo viu Jasmine cortar a palma da mão na sua espada enquanto que com a outra mão o agarrava pela jugular o erguendo para logo depois lhe enterrar de costas na neve. Sentiu uma dor terrível. Num só movimento ela pressionou a mão ensanguentada onde estava a ferida no seu olho a pressionando com uma força esmagadora.

Mas que porra ela queria com aquilo.

_ Quanto tempo temos Lucy Jordan! _ Ela gritou.

_ Dois ou três minutos.

Ela ergueu Inocêncio do chão e o pôs de pé. Ele estava meio zonzo e ficou fraquejante.

_ Bem vindo ao curso intensivo de como não ser um fracassado e morrer na merda. A titia Jasmine vai te conduzir por um caminho de dor para você despertar bela adormecida. Se defenda!

_ Que porra de loucura é essa?!

A mulher desferiu uma sequencia de socos começando pelo seu corpo, vez ou outra desferindo diretos na sua cara que o faziam tremer.

Nunca tinha tomado uma surra dessa magnitude. Tudo doia. O pior não era isso. Tinha noções fortes de artes marciais, cunhadas pelos anos em que treinou para não ser uma presa. Mas aqui nesse lugar contra essa mulher mal conseguia se mexer. Jiu jitsu, taekwondo, muay thai e sua arte preferida o boxe.

Não conseguia nem cruzar os braços para fechar uma guarda. Nem cair no chão conseguia com a pressão dos golpes que o afastavam para trás por uns cinco metros já.

Devia ter levado uns quarenta socos em uns 10 segundos.

A guardiã parou e riu debochadamente.

_Mas que porra de viadinho é você? Terei que bater em você como uma lebre.

Dor. Dor. Dor.

Medo. Medo. Medo.

Excitação? Excitação. Excitação!

Por mais que estivesse moído de cacete. Inocêncio começava a sentir um furor que subia por seu estômago. Estava começando a ficar puto e esquecer da dor e das suas fraquezas.

Nesse rápido momento que Jasmine parou de o golpear lembrou dos sparrings com seu melhor rival… Efferson. Meu Deus o que ele pensaria se pudesse ver isso. Sempre gostou de video game e coisas fantasiosas mas isso era foda.

Lembrou dos sparrings com Efferson que mesmo sendo uma categoria de peso menor que a sua o colocava uma pressão absurda principalmente por ser mais rápido e dar poucas brechas para o contra ataque. As vezes Inocêncio tinha que tomar alguns socos bem fortes para poder sair das cordas e igualar as ações meio que na força bruta. Realmente ele não gostava de admitir mas Efferson era um boxer muito mais técnico que ele.

Tentou contra Jasmine uma das táticas que usava contra Efferson. Fechou a guarda cruzada ala Foreman.

O sorriso na cara da guardiã desabrochou como uma flor se abrindo na manhâ.

_Então ai está. Vai tentar ser espancado mais de leve.

A mulher mal terminou de falar e avançou com outra sequência de socos esmagadores. Ele absorveu alguns apesar da maioria entrar e quando viu uma brecha torceu o corpo para trás e virou com um cruzado amplo de esquerda. Usou toda sua força. E para sua surpresa a guardiã segurou seu soco com uma mão. E com a outra deu uma tapa fortissima na sua cara.

A tapa queimou como o inferno.

O sapo gigante soltou uma gargalhada enquanto puxava uma tragada do cigarro.

Lucy Jordan gritou que faltava apenas dois minutos.

_ Baterei em você de tapa a partir de agora seu saco de bosta. Reaja!

E a mulher realmente cumpriu a promessa. Quebrava sua guarda e desferia tapões em cheio na sua cara que já estava vermelha de sangue das feridas. Também tinha lágrimas em seu rosto. Tanto da pressão nos olhos que o fazia lacrimejar, como lágrimas de dor mesmo e frustração. Nunca tinha sido tão humilhado assim. Conseguia ver as gaitadas guturais do sapo ao fundo. Isso o agoniava ainda mais.

_ Existe dois tipos de pessoa. As que se forem submetidas a muita pressão simplesmente quebram._ Deu mais duas tapas em cheio na cara de Inocêncio. _ E as que se forem submetidas a muita pressão explodem. Que tipo é você?!

Algo dentro de Inocêncio remexeu fundo. Na alma! Trincou os dentes com tanta raiva que sentiu as gengivas sangrarem.

Cegou. Não viu mais nada. Apenas o choque de fúria que preencheu seu coração e o fez avançar.

A guardiã tinha dado mais duas tapas na sua cara. Ele ignorou a agarrando pela cintura e a erguendo do chão enquanto avançava com ela uns três metros para afundar ela no chão em um movimento conhecido como suplex no mundo das lutas.

A ferocidade do ataque foi tremenda.

Com a guardiã no chão ele entrou na guarda dela e desferiu um direto de direita de cima para baixo visando a cabeça da mulher. Sentiu o corpo tremer de excitação com a vontade sanguinária que tinha tomado de conta dele.

A mulher simplesmente afastou a cabeça para o lado e Inocêncio atingiu o chão congelado. O soco fez uma rachadura circular de uns dois metros de onde o soco tinha atingido.

A guardiã mais uma vez soltou uma gargalhada debochada o que meio que despertou Inocêncio do transe. Ela o agarrou pelo maxilar e ergueu o próprio corpo dando um beijo na boca ensanguentada dele. Foi um beijo mais de felicitação do que de qualquer outra coisa.

Antes que ele pudesse compreender algo ela o raspou invertendo as posições e ficou de pé.

_Há não existe nada como a excitação do combate.

_Um minuto. Melhor você se apressar.

A guardiã respondeu.

_ Eu sei que você aguenta mais tempo Lucy Jordan, o garoto ainda não está pronto, ele precisa aprender o credo.

O sapo deu mais uma baforada no cigarro e disse:

_Eu detesto concordar mulher mas estamos sem tempo, esqueça o garoto, mesmo com seu sangue e a doença dos guardiões no organismo essa é uma situação impossível pra um bela adormecido como ele.

A guardiã caminhou até a espada fincando-a no chão.

_Que falta de fé a de vocês. Venha garoto vamos rezar o credo.

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Inocêncio estava aturdido com tudo aquilo, nunca se imaginou numa situação como aquela, ao mesmo tempo que duvidava de tudo o que acontecia ao seu redor sentia uma vontade e uma expectativa que o impulsionava para frente sem questionar nem pensar nas consequências, era como um fogo que lentamente consumia uma brasa e isso o assustava.

Caminhou ainda hesitante e ficou frente à frente com Jasmine, a guardiã o olhou de cima a baixo.

_Presta atenção garoto que só vou falar uma vez, ajoelhe-se, feche os olhos e repita comigo…

_Fecho o coração para a Dor, ela me torna Fraco…

Inocêncio repetiu com a voz tremula.

A guardiã o repreendeu.

_Repita com firmeza garoto! Isso não é brincadeira, sua vida dependerá disso!

E continuou.

_ Fecho o coração para a Misericórdia, ela me torna piedoso…

Inocêncio dessa vez repetiu com mais firmeza e sentiu novamente o fogo que subia do seu estomago e parava diretamente no seu coração.

_ Fecho o coração para o Medo, ele me faz hesitante…

Inocêncio mais uma vez falou as palavras e começou a sentir arrepios como se tivesse descendo uma montanha russa, seus batimentos aceleraram, sentiu seu corpo quente e uma vontade quase incontrolável de gritar.

Jasmine não controlava o sorriso ao ver as transformações no corpo dele era como se ela tivesse se vendo décadas atrás.

Lucy Jordan falou.

_ Trinta segundos!

Inocêncio percebia que a muralha criada por Lucy Jordan aos poucos estava ruindo, o touro e o leão a atingiam com ferocidade. Já podia prever o esfacelamento da contenção.

_Eu não posso aguentar mais mestre, esse é meu limite, isso é tudo o que eu tenho.

Falou o gato quase exaurido.

_Mas do que porra você é feito! Levante esse rabo peludo daí e me dê mais alguns segundos! Você é o primogênito dos juízes da família Jordan e essa é sua sexta vida. Me dê mais tempo!

Inocêncio viu os pelos de Lucy Jordan se arrepiarem, o olhar dele de repente mudou, o corpo ficou mais ereto e ele pegou o cajado com uma firmeza reticente.

_Octúpla Muralha Circular… Reforçar!

Lucy Jordan segurou o cajado como antes, só que dessa vez oito tufões rasgaram a neve reforçando a muralha e fechando as rachaduras. Depois disso o gato soltou um silvo alto e cravou o cajado no chão.

_Ventos do Norte, tempestades do Sul, ciclones do Oeste, tufões do Leste, me dêem a dádiva do mensageiro do ar… faça meus inimigos sangrar!

De repente do cajado cravado na neve uma mínima centelha de vento circular começou a tomar forma levantando os minúsculos cristais de gelo do chão e começou a crescer em direção dos seres aprisionados na barreira, a lufada de vento parecia um tornado depois de alguns segundos e entrou com facilidade na muralha atingindo as criaturas e as espalhando em rodopios alucinantes.

_ É disso que eu estou falando Lucy Jordan! É esse o espirito!

A mulher tinha um sorriso de satisfação no rosto. E continuou com o credo.

_ Abro o coração para a Fúria, ela me faz Poderoso…

Ao repetir a frase Inocêncio sentiu todas veias vascularizarem. A garganta estava seca como se ele sentisse uma sede lacerante e sentia um estresse brutal nos músculos. Queria dilacerar alguma coisa. Mal podia conter o ímpeto de destruição que crescia dentro dele.

_ Abro o coração para a Perseverança, ela me torna Obstinado…

Falou a mulher e Inocêncio ao repetir sentiu sua fúria se canalizar para os inimigos diante deles.

_ Abro o coração para a Sabedoria, ela me torna Justo…

Inocêncio sentia as frases se fixarem na sua mente enquanto as repetia. Não sabia se isso se devia a “mágica” contida na oração ou se o sangue da mulher que agora corria dentro da sua corrente sanguínea ajudava de alguma forma. Experimentava uma sensação única de florescimento de ódio misturada com sensações conflitantes que se canalizavam dentro dele o sufocando. Era como uma bomba relógio prestes a explodir.

_ Minha fé está no meu sangue e na minha carne, elas são a ruína do meu inimigo. _ Falou a mulher finalizando o credo.

_ Minha fé está no meu sangue e na minha carne, elas são a ruína do meu inimigo._ Repetiu Inocêncio sedento.

Á mulher ajoelhou e encostou a testa na testa dele, seus olhos se fixaram nos seus. Inocêncio podia jurar que ele via faíscas nos olhos da guardiã.

_ Não temos mais tempo meu jovem. O que eu acabei de lhe ensinar é o “Credo do Berserker”, por ter meu sangue em você e ter repetidos as palavras elas fixaram fundo na sua mente e coração. O credo de agora em diante será o seu guia em todas situações da vida. _ Ela o ergueu. _ Você deve estar confuso. Em resumo e em termos práticos o organismo humano com a evolução adormeceu milhares de funções do corpo para não se desgastar. E o que nós tentamos fazer é liberar esse potencial, mas só conseguimos isso quando entramos num furor sanguinolento herdado de guerreiros vikings chamados de berserkers. A fúria é nossa arma e o credo é o caminho que faz a travessia ser sustentável…

A contenção de Lucy Jordan começou a romper.

_ Enfim Inocêncio, nada é de graça e utilizar esse dom ao longo dos séculos cobrou um alto preço. Nós chamamos de doença do guardião. Não lhe explicarei isso aqui, mas se você sobreviver a hoje você compreenderá. Fim do curso intensivo de como não morrer. Espero que você não seja reprovado na primeira prova garoto.

A mulher o largou e se virou para os adversários.

_ Lucy Jordan elimine os cães, não deixe que eles atrapalhem. Frogbotton você pega o touro, e deixem que eu cuido do leão. _ Ela olhou para trás diretamente para Inocêncio, e disse: _Tá na hora de liberar a fúria garoto. Detona o canibalzinho.

A muralha se desfez completamente se liquefazendo como vidro, o touro e o leão avançavam sedentos acompanhados de vários lobos que uivavam na noite sombria.

Inocêncio sentiu o vento gélido passar por ele quando Frogbotton passou por ele avançando pra cima do touro e se engalfinhando com ele em um emaranhado de monstruosidade.

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A guardiã brandia Helenia como se ela fosse um graveto. Fisicamente ele achava impossível alguém brandir uma espada daquele tamanho com uma velocidade e técnica naquele nível. Em questão de segundos ela varreu o campo estraçalhando pelo menos dez cães até chegar no leão. Daí em diante ele mal pôde crer no que seus olhos viam. As milhares de cobras da juba do leão atacavam a guardiã em botes desordenados, assim como o próprio leão dava patadas e tentava abocanhar a mulher que parecia um tufão brandindo a espada sem parar e repelindo cada ataque em um tilintar de faíscas que mais parecia um braseiro de uma fornalha.

Quando olhou para o lado viu que Lucy Jordan fazia invocações com seu cajado tentando conter os lobos e na maior parte ele estava conseguindo tudo era uma bagunça e foi então que o fogo queimou no coração de Inocêncio.

Ele viu o Canibal.

_Abro o coração para a Fúria, ela me faz Poderoso…

Antes que pudesse pensar as palavras saíram de sua boca, seu corpo se moveu instintivamente. Era como se seu sangue tivesse entrado em ebulição. Seu desejo de brutalizar o Canibal era tão forte que ele quase não conseguia respirar enquanto rasgava a neve avançando feito um cão enlouquecido contra o homem.

Esse por sua vez tinha um sorriso doentio no rosto. Ao notar o avanço furioso de Inocêncio arregalou os olhos e ergueu a mão pensando em tomar uma postura de combate defensiva, mas o deslocamento do belo adormecido foi tão rápido que antes que ele pudesse levantar a guarda Inocêncio já tinha acertado três socos na sua face.

Os socos foram tão fortes que Inocêncio sentiu a mandíbula do adversário ruir em suas mãos, sentia que estava muito mais rápido e mais forte que antes. Sua percepção tinha aumentado tanto em tão pouco tempo que achava que as pessoas ao seu redor se movimentavam de uma maneira morosa. Foi essa percepção que fez ele bloquear o revide do Canibal com uma presteza absurda, bloqueou tanto a mão direito quanto à esquerda do homem as envergando e trazendo-as para baixo de suas axilas.

Sentiu a garganta queimar a vontade de gritar era absurda.

_ Filho da putaaaaaaaaaaa!!!

O grito saiu junto de uma sequência de cabeçadas que atingiam o Canibal destroçando seu rosto já desfigurado pela explosão anterior. Enquanto as cabeçadas atingiam o Canibal ambos iam afundando na neve tal grande era a força das pancadas, Inocêncio perdeu a conta de quantas cabeçadas acertou no inimigo. Só sentia que bater nele aplacava o ódio que o consumia.

Parou momentaneamente de espancar o Canibal ao sentir presas no seu Bíceps direito. Um dos cães tinha cravado as presas nele, e o sangue jorrou em instantes. Em uma situação diferente Inocêncio teria entrado em pânico ao ver uma fera desse quilate presa a ele, mas agora o seu instinto e o credo o guiavam

_ Fecho o coração para o Medo, ele me faz hesitante…

Ele falou novamente sem ao menos notar que estava falando.

Segurou a cabeça do cão com a mão esquerda e a esmagou como se estivesse esmagando uma goiaba podre. Mas dois cães já vinham sobre ele o fazendo abandonar a carcaça ensanguentada do Canibal no buraco na neve. Virou sua atenção para os cães e no deslocamento pela neve até chegar neles notou que a guardiã tinha perdido um braço. Seu impulso foi o de ir ajuda-la e então percebeu que ela estava em pé sobre a pilha de carne indistinguível que tinha se tornado o leão. Do outro lado em baixo do London eye Frogbotton também havia ganhado seu embate com o touro que agora não passava de uma estátua congelada,

Lucy Jordan apesar de exausta tinha dado conta da maioria esmagadora dos cães. E com os dois que ele acabou de exterminar Inocêncio notou que eles haviam vencido o embate. Depois de eliminar os cães se dirigiam a guardiã e viram que ela estava banhada no sangue dos inimigos assim como no seu próprio. Mesmo assim tinha um sorriso de satisfação no rosto.

_Onde está o Canibalzinho garoto?

Inocêncio virou e apontou para o lugar onde tinha deixado o Canibal só que ao invés de o inimigo dilacerado o Canibal estava de pé e tinha uma bola brilhante de energia enegrecida na mão esquerda estendida.

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A mulher gritou.

_Para trás de mim garoto!

Frogbotton também vinha se deslocando da London Eye em ruinas  e esbravejava para a mulher.

_ Isso é loucura mulher! Ele está com o poder do divino sombrio. É impossível vencer alguém com isso. Recue!

Inocêncio estava desconcertado e não entendia o que acontecia. Mas notou que o que o canibal trazia era algo que apavorava Lucy Jordan que estava com todos pelos eriçados e olhava incrédulo para frente.

_ Meu pai já venceu isso. Nós também podemos! _ Ela retrucou.

FrogBotton chegou onde eles estavam.

_Era outro tempo. Ele estava acompanhado de outros onze guardiões e milhares de familiares. Sele o portal e fuja com os outros daqui! Eu vou retardar ele o máximo que eu puder.

O sapo albino tinha o semblante de preocupação e pressa.

A guardiã hesitou por um momento mas baixou a cabeça.

_Você tem razão como sempre FrogBotton. Lucy! Você tem uma missão. Leve o garoto até o santuário dos familiares. Termine o treinamento dele, faça-o caçar esse bastardo e recuperar a Helenia. Para mim foi uma honra ter você ao meu lado. Pegue.

A mulher jogou uma garrafa com um bilhete dentro.

_Só mostre ao garoto quando ele estiver pronto.

Os olhos de Lucy Jordan estavam cheios de lágrimas. Ele não proferiu uma palavra.

Inocêncio não entendia.

_ Você tem fibra garoto! Dará um bom guardião.

Inocêncio queria falar mas as palavras fugiam. Não pensava em nada para dizer.

Lucy Jordan pegou no braço de Inocêncio e ele sentiu o estomago revirar. Em uma fração de segundos estavam longe uns quarenta metros. Inocêncio percebeu que se tratava dos miniteletransportes que o gato fazia. Rezou para não ter que fazer outra viagem daquela.

No campo Aquila Jasmine acendia seu último cigarro.

Ofereceu um outro a FrogBotton.

_ Nossa última batalha não foi das piores. Foi uma honra e uma dádiva ter você como meu familiar primordial seu sapo escroto.

_ A honra foi minha mulher. Você é cabeça dura mas me fez ter uma vida plena e cheia de desafios. Eu não poderia esperar menos ou mais de você.

Trocaram palavras e FrogBotton sacou uma garrafa de liquido vermelho.

Bebeu e deu a ela. Que sorveu o liquido e jogou a garrafa no chão a quebrando.

_Já chega mulher. Me dê a espada e farei com que sua morte seja menos dolorosa. _Falou o Canibal.

_ Ah Canibalzinho. Você está com o maior dom que alguém poderia ter nesse mundo desgraçado e pensa tão pequeno. Não sei como você conseguiu o poder do “Divino Sombrio” mas já notei que você não deve tê-lo usado antes. Ele também cobra seu preço. Saiba disso.

A mulher apanhou Helenia com o braço que lhe restava. Falou algo baixinho próximo ao cabo e ergueu a espada colossal.

_Sou Jasmine Aquila. Guardiã do portal meridional Norte. “A Domadora” e a partir de hoje dou por selado o portal e encerrado meu serviço!

_Nãooo! O que você estava fazendo sua puta!

O canibal gritou e fechou a mão. A esfera negra se partiu e milhares de faíscas negras avançaram sobre a mulher. FrogBotton se pôs entre ela e as faíscas e foi dilacerado virando pó em questão de milésimos de segundos.

Uma lágrima escorreu pelo rosto da guardiã. As faíscas de gelo do corpo dilacerado de FrogBotton molharam seus cabelos e sua face.

A mulher não hesitou e arremessou Helenia de Ragnar em direção a London Eye. A espada cruzou o ar e atingiu a roda gigante com um ruído estridente para logo depois explodir derrubando a roda gigante que começou a cair lentamente.

O canibal grunhia de raiva.

A espada se rematerializou na mão de Jasmine.

Ela cravou a espada na neve e Helenia de Ragnar simplesmente se encouraçou com uma fibra de gelo.

O Canibal tinha outra bola negra na mão.

Jasmine soltou uma gargalhada debochada como antes e falou.

_ Eu disse que esse poder custa caro. A fração de segundos que você demorará para quebrar a bola é o tempo que eu levarei para tocar nela. Nós guardiões somos chamarizes de luz e você deve saber o que vai acontecer quando eu tocar na sua esferinha. Estou uma espada e um braço mais leve agora.

A London Eye se espatifou no chão e um emaranhado de ferro, terra e gelo se lançou sobre eles.

A guardiã avançou.

O canibal fechou a mão, mas a mulher já estava sobre ele e segurou a esfera negra do outro lado.

_ Minha fé está no meu sangue e na minha carne, elas são a ruína do meu inimigo. _ Disse a guardiã com um ar de satisfação no rosto.

A explosão que se seguiu acabou de varrer o lugar.

Inocêncio via tudo de longe com Lucy Jordan que tinha conjurado uma barreira para proteger os dois.

Quando a poeira baixou Inocêncio pôde notar que não existia mais vestígios de Jasmine, apenas o canibal continuava de pé intacto depois da explosão.

O ódio crescia dentro dele. Suas pernas já estavam o impulsionando para frente quando Lucy o pegou pelo braço e balançou a cabeça negativamente.

_ Não faça o sacrifício de Jasmine ser em vão. Lá lhe explicarei o porquê de não termos como vencer agora. Temos de ir até a fenda. Ela é a passagem para o santuário.

_Mas e a espada. Ele vai pegar a espada._ Indagou Inocêncio.

_ Deixe que a leve. Ele tem uma chance em um milhão de libera-la sem a palavra certa. Ele virá atrás de nós quando descobrir que está sem a chave. Precisamos estar prontos. Venha e não olhe para trás.

Mas Inocêncio olhou e mesmo a uma grande distância encontrou os olhos do Canibal que também olhava para ele.

Como em toda sua vida poderia ter medo. Ficar com um pé atrás. Apavorado.

Mas não.

Abriu um sorriso de escárnio para o inimigo. E falou mas para si próprio do que para o Canibal.

_ Antes de morrer, olharei para o seu cadáver e sorrirei…

Deu as costas e seguiu Lucy Jordan zona de barreira adentro.

 

Por Jefferson Lopes (@jeffersonwayne)

ato viii berserk parte 2

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